27 de fevereiro de 2009

A MISSÃO DA IGREJA


Em 1876, quando ministrava a palavra inicial numa convenção regional em Taranto (Itália), o bispo católico Don Caprício disse que “a missio Dei pela sua supremacia bíblica dispensa a missão da Igreja. Somos apenas contempladores das maravilhas que Deus faz”.[1] Com certeza, essa concepção de missio Dei está totalmente equivocada quanto à participação da Igreja na missão de Deus. Realmente a “missão” é do Deus Triúno, e que a Igreja não tem missão própria. Contudo, isso não quer dizer que ela não tenha uma tarefa a cumprir com relação a essa missão. Num sentido restrito, a missão é só de Deus, mas por sua graça e propósito, a Igreja tem o privilégio de participar.

Embora forte ênfase sobre a Grande Comissão recaia sobre os Evangelhos sinóticos (Mt 28.18-20; Mc 16.15-18; Lc 24.44-49), o Quarto Evangelho possui em sua essência um propósito missionário (Jo 20.31), bem como uma comissão da parte do Senhor Jesus: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). Estas palavras foram ditas pouco antes de sua ascensão e são o fundamento básico para o envolvimento missionário da Igreja no Evangelho de João. Referindo-se a este verso, John Stott observa que a missão da Igreja encontra articulação precisa no Quarto Evangelho:

A forma crucial em que a Grande Comissão tem sido legada a nós (apesar de que ela é a mais negligenciada porque é a mais custosa) é a Joanina. Jesus tinha antecipado-a em sua oração no cenáculo na qual tinha dito ao Pai: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo 17.18). Agora, provavelmente no mesmo cenáculo, mas após sua morte e ressurreição, ele tornou a sua oração-declaração em comissão e disse: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). Em ambas essas declarações Jesus fez mais do que descrever um paralelo vago entre a sua missão e a nossa. Deliberadamente e precisamente, ele fez de sua missão o modelo da nossa, dizendo: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”. Desse modo, nossa compreensão da missão da Igreja deve ser deduzida de nossa compreensão da missão do Filho.[2]

A missão da Igreja é fundamental na missão do Filho e “nada menos que a missão de Jesus para o mundo serve de modelo para a missão da Igreja”.[3] O apostolado da Igreja é identificado com o apostolado do Filho e dele depende. Pois fora dessa missio Dei, por meio de Jesus, não existiriam mais envios hoje. “Tudo o que acontece em termos de envio desde Sua missio partiu dele, está determinado por Ele, encerrado em Seu envio, é continuação de Seu envio por Ele mesmo”.[4] Por isso, é possível e correto dizer que a missão da Igreja é a continuação da missão de Jesus. Erdmann, falando sobre a missão em João, nomeia um de seus subtítulos de The Continuation of Mission: the Sending of the Disciples (A Continuação da Missão: o Envio dos Discípulos).[5]

Antes de analisarmos melhor a Comissão de Jesus em João 20.21-22, é preciso fazer algumas observações e comentar outros textos que também falam do envio dos discípulos. A primeira consideração é a respeito da palavra Igreja. Reconhecemos que ela não aparece no Evangelho de João, nem nas suas duas primeiras Epístolas; somente na terceira e em Apocalipse (III Jo 1.6, 9, 10; Ap 2.1; 8, 12, 18; 3.1, 7, 14). No entanto, embora a palavra não apareça no Evangelho, o seu conceito está presente. Em segundo lugar, é preciso fazer diferenciação entre a Igreja e a “missão”. Nem tudo que a Igreja faz é missão (por exemplo, o culto). De acordo com Stott, “dizer que ‘a igreja é missão’ soa bem, mas não passa de exagero”.[6] Também não podemos dizer que “missão” é tudo que Deus faz no mundo, pois, independente da atividade da Igreja, Deus age no mundo através da sua providência e graça comum.

Quanto aos outros textos que falam do envio dos discípulos por Jesus, além de João 20.21, existem mais três declarações em relação ao envio deles ao mundo (4.34, 38; 13.16, 20; 17.18). Depois da conversa de Jesus com a mulher samaritana, ele envia seus discípulos para a ceifa (4.35-38). O objetivo dessa missão é “entesourar seu fruto para a vida eterna” (4.36), ou seja, eles deveriam levar outras pessoas a Cristo, como aquele que confere vida eterna. A seriedade de receber os desafios dessa tarefa absorvente é impulsionada pela consciência do iminente julgamento que virá sobre o mundo (5.22, 27-30). Na sua segunda vinda, o Senhor Jesus dará seu veredito imparcial sobre a vida de todos os seres humanos, e o destino eterno deles estará baseado no fato de eles terem crido ou não no Evangelho (3.16-18).[7]

Em João 13.16-20, Jesus diz que “o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou” (v. 16). O “enviado” aqui se refere aos discípulos. E se Jesus, que é o Senhor, lavou os pés deles, demonstra que ele não se tornou menos digno. Logo, eles deveriam fazer o mesmo. Nessa tarefa oficial em que os discípulos foram divinamente comissionados, a humildade deve ser algo próprio do exercício de sua função. Se a humildade é uma atitude própria para o Senhor e enviador, assim também deveria ser para os servos e comissionados. Por meio de Cristo, eles deveriam exercitar-se nesta graça e crescer nela, pois é bênção para quem a pratica (v.17). No verso 20, Jesus diz: “quem recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou”. Novamente Jesus se identifica como enviador e enviado, estabelecendo uma relação com os discípulos como enviados dele. Os discípulos representariam a Cristo, assim como ele representou o Pai. E se alguém rejeita a mensagem dos apóstolos, está rejeitando automaticamente, tanto o Filho como o Pai. Essa correlação é inseparável. Por isso “aplica-se a todos os tempos e para cada verdadeiro embaixador de Cristo (i.e., para cada embaixador que verdadeiramente o representa e verdadeiramente proclama sua Palavra)”.[8]

Na oração final de Jesus, ele não roga ao Pai para que seus discípulos fossem tirados do mundo, mas para que fossem livrados do mal (17.15). Jesus também intercedeu para que fossem santificados pela Palavra de Deus (17.17). Assegurado da resposta do Pai, ele continua: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade” (17.18-19). A santificação dos discípulos é para que eles possam ser enviados, assim como ele havia sido antes. Nessa mesma oração, Jesus também roga para que os discípulos vivam em unidade, pois a unidade servirá como testemunho ao mundo da verdade referente a Jesus (17.21-23). Em João 13.34-35, Jesus diz que o amor dos discípulos uns pelos outros levaria o mundo a reconhecer que eles eram verdadeiramente seus seguidores. Feitas essas considerações preliminares, vamos ao envio da Igreja na Comissão do Cristo pós-ressurreto.

5.1. O Envio da Igreja
“Assim como o Pai me enviou (apestalken), eu também vos envio (pempo)” (Jo 20.21). Aqui, como em outros lugares, João usa os verbos intercambiavelmente com o mesmo sentido. Como foi dito antes, no capítulo 3, o envio dos discípulos por Jesus é descrito tanto por apostello (4.38; 17.18) como por pempo (13.16, 20; 20.21). Entende-se que não existe uma variação de significados. As duas palavras possuem a mesma conotação no Evangelho de João. Referem-se ao ato de alguém que envia outro a um remetente, levando consigo a autoridade daquele que o enviou. Esse fato é bastante importante aqui, porque capacita a Igreja com a autoridade de Cristo. É a verdade que Cristo trouxe, viveu e revelou que a Igreja proclama ao mundo. Analisando esse aspecto em João 20.21, C. K. Barrett diz:

"O envio de Jesus por Deus significou que nas palavras, obras e pessoa de Jesus, os homens verdadeiramente se confrontam não meramente com um judeu, mas sim com o próprio Deus... A isto segue que na missão apostólica da Igreja, o mundo verdadeiramente se confronta não meramente com uma instituição humana, mas sim com Jesus, o Filho de Deus". [9]

Essa apostolicidade da Igreja através do envio do Filho (e do Pai e, por inferência, do Espírito), deve gerar em nós uma consciência muito profunda do papel que temos a cumprir como transmissores da mensagem salvífica. A Igreja não pode esquecer ou deixar de priorizar essa tarefa que Deus lhe confiou. “O tornar-nos instrumentos do Pai para levar a Sua salvação a todo o mundo e a consciência que temos disso devem gerar em nós, como indivíduos e comunidade, uma intensa e constante compulsão missionária”.[10] A participação da Igreja na missão de Deus faz parte de sua própria natureza, como instituição criada pelo próprio Deus. Se a Igreja não está envolvida na missão de Cristo ao mundo, não há envolvimento com ele e nele. Como foi citado no primeiro capítulo: “não cabe à Igreja decidir se ela quer fazer missão, mas ela só pode decidir se quer ser Igreja”.[11]

Desse modo, a Igreja como instrumento do Pai na consecução dos seus propósitos de salvação a um mundo que o rejeita, tem paralelo ou fatores de identificação com a própria missão do Filho. Até agora foram apresentados pelo menos três desses aspectos. Primeiro, a Igreja assume a missão do Filho, ou seja, através dela o Pai dá continuidade a sua missio. A Igreja deve levar a mensagem confrontadora do Evangelho ao mundo, mas essa missão é derivada e dependente da missão de Cristo. No entanto, a Igreja como apóstola de Cristo, não continua a obra dele em um caráter redentor, isto é, a sua missão não assume o aspecto soteriológico. Segundo, assim como o Filho não veio fazer a sua própria vontade, nem trouxe uma mensagem que não fosse a de seu Pai, ou seja, o modelo de sua missão estava centrado naquilo que o Pai lhe outorgou, do mesmo modo a Igreja não tem modelo missionário próprio. O seu modelo é a encarnação. A Igreja tem a seguir o mesmo padrão que o Pai usou ao enviar o Filho. Jesus é o seu modelo missionário. Terceiro, uma vez que o enviado identifica-se com o enviador, a Igreja, quando realiza a missão, está representando o Senhor Jesus. Ela age fundamentada na autoridade que o Filho possui no céu e na terra (cf. Mt 28.18-19).[12] Como diz Stott, “a missão da Igreja brota da autoridade universal de Cristo”.[13] Resta ainda tratar de mais dois aspectos da instrumentalidade da Igreja na missão: sua relação com o mundo e seu serviço.

5.2. O Caráter da Missão da Igreja
“Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). Se realmente a Igreja quer cumprir a missão que lhe foi outorgada, é preciso olhar para Cristo e ver nele o que compete fazer. E com base em Cristo como modelo missionário, cabe desenvolver aqui pelo menos mais dois aspectos essenciais para a realização dessa obra que compete à Igreja. Pois existe uma analogia entre o envio do Filho como Mediador e o envio dos apóstolos: “A autoridade comissionante é a mesma; a mensagem é a mesma (todavia, existe esta diferença: Jesus através de sua expiação faz a mensagem possível; os apóstolos simplesmente a proclamam!); e os homens a quem é proclamada são os mesmos. Portanto, o ‘assim... como’”.[14] É nesta perspectiva e paralelo que dois aspectos da proclamação da mensagem serão tratados: a quem e como. Jesus envia a Igreja ao mundo com uma mensagem, para servir.

a) Jesus envia sua Igreja ao mundo
“Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (17.18; cf. 20.21). Nesta oração que Jesus fez ao Pai, ele diz que sua missão foi direcionada ao mundo, de modo que a missão da Igreja tem a mesma direção e propósito. O significado da palavra mundo foi visto quando da análise feita do amor do Pai em João 3.16. Em síntese, e tomando os conceitos esboçados por René Padilla, pode-se conceituar mundo em três sentidos básicos: (1) O universo criado; (2) A ordem presente da existência humana [tempo-espaço]; e (3) A humanidade em franca inimizade contra Deus e servil aos poderes das trevas. [15]

O sentido em que o mundo é reclamado pelo Evangelho, é este último, ou seja, o mundo rebelde e hostil a Deus. Desse modo, a palavra mundo no Quarto Evangelho “designa a esfera dos homens e dos afazeres humanos colocada em contraste ao mundo acima e ao Reino de Deus”.[16] Ao olhar com mais atenção para o prólogo de João, percebe-se que ele difere dos Evangelhos sinóticos. Enquanto estes, pelo menos Mateus e Marcos, relatam o fato da humanidade e descendência do Messias ser da linhagem de Israel, e a conseqüente obra messiânica de Jesus parecer restringir-se aos israelitas, João já começa com o Messias criador do universo e como vindo ao mundo. Não somente a Israel (Jo 1.9-10). Isso demonstra que a missão de Cristo foi universal e alcança toda a humanidade. Ele não é o Salvador de uma seita ou somente de uma nação, mas é o “Salvador do mundo” (Jo 4.42; cf. I Jo 4.14). Como visto, o mundo é objeto do amor de Deus (Jo 3.16). Jesus é o Cordeiro que “tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), a luz do mundo (Jo 1.9; 8.12; 9.5), a propiciação pelos pecados do mundo inteiro (I Jo 2.2; cf. II Co 5.19). O Filho foi enviado ao mundo não para que o condenasse, mas “para o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3.17).

Estes textos falam claramente que a salvação por meio de Cristo tem uma amplitude universal. No entanto, a universalidade da salvação não quer dizer que todos os homens, no final serão salvos, independente de sua posição frente a Cristo. Os benefícios da obra de Cristo são indissociáveis do Evangelho e, consecutivamente, só poderão ser recebidos através do Evangelho. Ao mesmo tempo em que pregar o Evangelho é falar de um fato consumado há quase dois mil anos atrás, deve-se chamar os ouvintes ao arrependimento e à fé, hoje. “A proclamação de Jesus como ‘o Salvador do mundo’ não é uma afirmação que todos os homens sejam salvos automaticamente, mas um convite dirigido a todos os homens a colocarem sua confiança naquele que deu sua vida pelos pecados do mundo”.[17] A salvação em Cristo está estritamente ligada à fé nele. Somente a fé nele é que salva. Há um duplo processo. Sem essa identificação com Cristo, não se pode usufruir os resultados da sua obra, ou seja, a vida eterna.

Disse Jesus: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (17.18; cf. 20.21). O objeto da salvação de Deus é o mundo e “da universalidade do Evangelho se deriva a universalidade da missão evangelizadora da Igreja”.[18] O Evangelho deve ser pregado a todas as nações e exigido de cada um que o ouve, o arrependimento para perdão dos pecados.
Ainda com relação ao mundo, como deve ser levado o Evangelho? Que princípio básico e essencial é encontrado em Cristo como modelo? O princípio da encarnação. “O Verbo estava no mundo...” (Jo 1.10); “O Verbo se fez carne” (Jo 1.14). Deus foi enviado ao mundo e aqui esteve com os homens. Ele assumiu a natureza humana. Tornou-se como os homens e experimentou as mesmas fraquezas, sofrimentos e tentações que estes experimentam. Levou sobre si os pecados dos homens e morreu a sua morte. Ele se identificou com os homens para que a Igreja também se identifique. Em relação a essa encarnação na missão, diz Stott:

"Um dos nossos fracassos mais típicos, evangelicamente falando, é, com toda a certeza, o fato de raramente levarmos a sério o princípio da encarnação... A nós, porém, parece-nos mais natural gritar o Evangelho para as pessoas, à distância, do que nos deixarmos envolver profundamente em suas vidas, preocupando-nos com os seus problemas de tal modo que pareçam nossos; partilhando, enfim, das suas próprias aflições".[19]

Se realmente a Igreja quer ter a Jesus como seu modelo missionário, deve atentar para a necessidade do esvaziamento de si mesma e se identificar com aqueles a quem a mensagem é dirigida, seja qual for a tribo, povo ou nação. Esse princípio da encarnação da missão é expresso de forma majestosa e impactante por Samuel Escobar:

"Seja a nossa atitude a mesma de Cristo Jesus, o qual, para chegar até nós, cruzou a fronteira entre o céu e a terra,
cruzou a fronteira da pobreza para nascer em um curral e viver sem saber onde iria reclinar sua cabeça a cada noite,
cruzou a fronteira da marginalização para abraçar publicanos e samaritanos,
cruzou a fronteira do poder espiritual para libertar os que eram afligidos por legiões de demônios,
cruzou a fronteira do protesto social para dizer verdades aos fariseus, escribas e mercadores do templo,
cruzou a fronteira da cruz e da morte para ajudar a todos nós a passarmos para o outro lado;
Senhor ressuscitado que por isso nos espera lá, em toda fronteira que tenhamos de cruzar com seu evangelho".[20]

b) Jesus envia a sua Igreja para servir
Como modelo missionário para a Igreja, Jesus veio ao mundo para servir. Não somente veio para pregar ou salvar, mas também para servir. Aqueles que estavam esperando o Messias estavam familiarizados com a figura do “Filho do homem” de Daniel 7.13-14, que possuía todo e poder e por todas as nações era servido. Porém, Jesus sabia que antes de receber todo esse poder e domínio, ele teria de servir e suportar as provações. Na verdade, em Jesus fundem-se duas figuras do Antigo Testamento, que na mente dos judeus, ávidos por libertação de Roma, não havia conciliação: o “Filho do homem” de Daniel e o “Servo Sofredor” de Isaías. Jesus fez essa conciliação quando disse: “Pois o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45). A sua morte expiatória selou a sua vida de serviços. “Em seu ministério público Jesus proclamava o Reino de Deus e falava das suas implicações; saciava bocas famintas e lavava pés sujos. Curou enfermos, confortou melancólicos, ressuscitou mortos, colocando-se altruisticamente a serviço dos outros”.[21]

Desse modo, a missão da Igreja tem como característica servir, assim como Jesus serviu. Ele deu o modelo de como servir e isso a obriga a caracterizar-se, na sua prática, como Igreja missionária de servidores. Eis, agora, três características de como Jesus realizou sua missão tornando-se modelo para a Igreja.

(1)Humildade. Toda a vida de Jesus enquanto apóstolo do Pai aqui na terra foi uma vida de submissão (5.30; 7.18; 9.4). Um dos exemplos mais característicos de sua humildade foi a lavagem dos pés dos discípulos (13.12-17). Se ele é Senhor e Mestre lavou os pés deles, eles também deveriam fazer o mesmo, “porque eu vos dei o exemplo”, disse Jesus (v. 15). Jesus realizou a sua missão e serviço em plena humildade, assim também a Igreja deve fazer. Como diz del Pino, “não somos maiores que Jesus e isto deve conduzir-nos a uma atitude de submissão a Deus”.[22]

(2) Misericórdia. Embora esta palavra e seus derivados não apareçam em João, na análise das declarações de Cristo em 5.24; 6.29; 12.44-45 e 17.3, por exemplo, fica claro que a encarnação de Jesus Cristo com o propósito de trazer salvação a um mundo que rejeita a Deus, é um ato de misericórdia. Assim, a misericórdia e a redenção “são o próprio coração, essência e natureza dessa missão”.[23] A misericórdia do Senhor Jesus não deve ser vista somente nos resultados finais de trazer vida eterna aos pecadores, mas foi demonstrada durante todo o seu ministério (cf. Mt 9.13; 23.23; Lc 10.37). Da mesma maneira Jesus espera misericórdia no desenvolvimento da missão do Deus Triúno (cf. Mt 5.7). O paralelo mais próximo da misericórdia de Jesus, em João, é graça (1.14, 16, 17).

(3) Amor. O amor de Deus pelo Filho e pela humanidade é o fundamento motivador da missão. Como descrito no capítulo 2, o amor incondicional e eterno do Pai é a única motivação da sua missão (3.16, 35; 14.31; 15.19; 17.23). Assim como o amor do Filho pelo mundo caracterizou a sua missão, assim também a missão cristã deve ser caracterizada pelo amor dos irmãos, uns pelos outros (João 13.34-35) e pelo mundo. Assim diz o apóstolo Paulo: “o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo” (Rm 5.5).

Desse modo, a missão da Igreja é identificada pela missão do Filho, ou seja, nele a Igreja deve ser modelada ao participar da missio Dei. Ela é caracterizada pelo seu envio ao mundo e pelo serviço em amor, misericórdia e humildade. E, assim, dá continuidade à missão do Filho, proclamando-o como redentor, na autoridade de seu nome.

Entretanto, a Igreja por si só não está capacitada para realizar a missão para a qual foi enviada. Como diz del Pino e como ressaltado no capítulo anterior, “a presença e a atuação especial do Espírito Santo, tanto na Igreja, quanto no mundo que rejeita a Deus, são fatores básicos sem os quais a Igreja não tem como realizar a sua missão”.[24] É sobre a capacitação do Espírito no cumprimento da missão da Igreja que versará o próximo item.

5.3. O Espírito Santo e a Missão da Igreja
Em seu livro sobre o Espírito Santo, John V. Taylor assim inicia: “O principal protagonista da missão histórica da Igreja cristã é o Espírito Santo. Ele é o diretor de todo o empreendimento”.[25] Esse fato é central quando se observa a capacitação do Espírito na vida do Senhor Jesus e a extrema influência e direção do Espírito na Igreja no livro de Atos, no cumprimento de suas missões específicas. Numa análise em João, chega-se à conclusão que os discípulos estavam no meio termo. Jesus disse, no último dia da festa dos Tabernáculos, que aquele que tivesse sede poderia ir até ele e beber – referia-se a crer –, e se alguém crer nele, do “seu interior fluirão rios de água viva”. Sobre isso, João comenta: “Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado” (Jo 7.37-39). A doação do Espírito, por meio do Cristo glorificado, se deu no dia de Pentecostes (At 2.1-4). Com isso não se quer dizer que o Espírito não estava presente na antiga aliança, mas que, no dia de Pentecostes, ele entrou num relacionamento mais íntimo com os crentes (Jo 14.17; cf. I Co 6.19).

A ação do Espírito na missão da Igreja e, através desta, no mundo, assume um papel principal. Após a comissão dos discípulos (Jo 20.21), Jesus comunica o meio pelo qual eles realizariam a missão: “... soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22). Os discípulos só podiam permanecer fiéis no testemunho do Evangelho por contar com a paz de Deus e com o poder do Espírito Santo. O ministério deles, bem como o da Igreja hoje, é dizer ao mundo que o perdão dos pecados está disponível somente por meio de Cristo. Por isso continuou Jesus: “Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos” (Jo 20.22). Mas o que significa essa promessa? De acordo com Bruce, “os dois passivos – são-lhes perdoados e são retidos - subentendem a ação divina; a função do pregador é declarar, e é Deus quem, na verdade, perdoa ou retém. Os servos de Cristo não recebem nenhuma autoridade independente da dele, nem qualquer garantia de infalibilidade”.[26] Desse modo, não há garantia contra o erro dos discípulos ou da Igreja. Mas um fato é certo. O Espírito Santo suprirá a Igreja em suas ações enquanto ela se apega a Cristo. E isso é a única necessidade da Igreja e nessa promessa ela pode confiar.

A unção do Espírito é a capacitação indispensável e suficiente para a continuação da missio Dei. Como já foi dito no capítulo anterior, pelo menos cinco vezes no discurso de despedida, Jesus prometeu a vinda do Espírito (Jo 14-16). Uma síntese dessa obra do Espírito na Igreja, no mundo incrédulo e em relação a Cristo é a seguinte: o Espírito Santo (o Ajudador) que é enviado pelo Pai (Jo 14.26) e pelo Filho (15.26), testemunhará do próprio Filho (15.26), de modo que os homens possam reconhecer a verdade da mensagem dos discípulos acerca de Cristo. O Espírito também convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo (16.8-11). Guiará os discípulos em toda verdade (14.17; 16.13), bem como exercerá uma importante função ao trazer à lembrança o ensino de Jesus (14.26). E ainda o Parácleto permanecerá continuamente com a Igreja como seu Mestre divino (14.17, 26). Desse modo, o protagonismo do Espírito na missão histórica da Igreja é evidente e essencial. “Por meio do Espírito, a Igreja pode agir em lugar de Deus como Deus agiu com Seu Filho... A Igreja agora executa a missão e, através dela, a missio Dei se torna visível ao mundo”.[27] Portanto, sem a capacitação do Espírito não existiria missão entre os homens. E, de fato, a missão é do Deus Triúno. A missão é de Deus. A Igreja tem o privilégio de cooperar (cf. I Co 3.7-9).

Certamente um parágrafo, intitulado “Deus, o Evangelista”, produzido pelo Manifesto de Manila, no II Congresso Internacional de Evangelização Mundial (1989), resume muito bem e acertadamente a obra do Espírito quanto à missio Dei:

"As Escrituras declaram que Deus é o principal evangelista. Pois o Espírito de Deus é o Espírito da verdade, do amor, de santidade e poder, e sem Ele o evangelismo é impossível. É Ele quem unge o mensageiro, confirma a palavra, prepara o ouvinte, convence o pecador, ilumina o cego, restitui vida ao morto, nos capacita para o arrependimento e à fé, nos une ao Corpo de Cristo, garante-nos a condição de filhos de Deus, leva-nos a assumir o caráter e o serviço cristãos e nos envia para sermos testemunhas de Cristo. Em tudo isso a preocupação principal do Espírito Santo é glorificar Jesus Cristo, mostrando-O a nós e formando-O em nós."[28]

Conclusão
“Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21), disse Jesus aos seus seguidores no passado. E durante o decorrer dos séculos ele continua enviando a sua Igreja. As mesmas palavras daquela comissão pós-ressurreição devem ecoar na Igreja de todos os tempos. A Igreja só é Igreja enquanto co-participante, cooperadora e continuadora da missão do Filho. Jesus continua a enviar seu povo a todas as etnias. Mesmo em face de um mundo hostil, que rejeita a Deus, sua graça e misericórdia hão de alcançar aqueles que ele escolheu antes da fundação mundo (Ef 1.4-5). Para isso, no entanto, a mensagem da cruz tem de ser pregada, proclamada e vivida, pois a salvação e a vida eterna estão disponíveis a todo o que crer em Jesus. No poder do Espírito Santo, a Igreja tem o privilégio e a responsabilidade de levar a mensagem de vida eterna e perdão dos pecados em todos os campos de colheita espalhados pelo mundo (Jo 4.38). A consciência da missão da Igreja moderna passa por um período de falta de fervor e convicção por causa de sua aderência superficial e nominal à verdade de Deus, que é, em última análise, falta de devoção a Cristo. A Igreja desfalecida de hoje só alcançará novamente sua vitalidade por meio da renovação de seu compromisso de pregar ousadamente a Jesus, o apóstolo de Deus.[29]


[1] Citado por LIDÓRIO, Ronaldo. Verdadeiro Cristianismo ou Falsa Religiosidade. In: www.ronaldo.lidorio.com.br/ler_verdcristianismo.htm [acesso em 20 de mar. 2002].
[2] STOTT, J. R. W. Christian Mission in the Modern World. Downers Grove: InterVarsity, 1975. p. 23.
[3] CARRIKER. Missão Integral. p. 219. Ver também ERDMANN. Mission in John’s Gospel and Letters. p. 222. DEL PINO. O Apostolado de Cristo e a Missão da Igreja. p. 61. SENIOR e STUHLMUELLER. Os Fundamentos Bíblicos da Missão. p. 397. STOTT. A Base Bíblica da Evangelização. p. 35.
[4] VICEDOM. A Missão como Obra de Deus. p. 45.
[5] ERDMANN. Mission in John’s Gospel and Letters. p. 220.
[6] STOTT. A Base Bíblica da Evangelização. p. 38.
[7] ERDMANN. Mission in John’s Gospel and Letters. p. 221.
[8] HENDRIKSEN. John. 2:240-241.
[9] BARRETT, C. K. The Gospel According to St. John. London: SPCK, 1975. p. 474.
[10] DEL PINO. O Apostolado de Cristo e a Missão da Igreja. p. 63.
[11] VICEDOM. A Missão como Obra de Deus. p. 16.
[12] Ver DEL PINO. O Apostolado de Cristo e a Missão da Igreja. p. 64.
[13] STOTT. Ouça o Espírito, Ouça o Mundo. p. 368.
[14] HENDRIKSEN. John. 2:460.
[15] PADILLA, C. René. Missão Integral. 1 ed. São Paulo: Fratenidade Teológica Latinoamericana –Brasil e Temática, 1992. p. 16.
[16] LADD. Teologia do Novo Testamento. p. 202.
[17] PADILLA. Missão Integral. p. 18.
[18] PADILLA. Missão Integral. p. 18.
[19] STOTT. A Base Bíblica da Evangelização. p. 36.
[20] ESCOBAR, Samuel. Desafios da Igreja na América Latina: história, estratégia e teologia de missões. 1 ed. Viçosa: Ultimato, 1997. p. 84-85.
[21] STOTT. A Base Bíblica da Evangelização. p. 36.
[22] DEL PINO. O Apostolado de Cristo e a Missão da Igreja. p. 65.
[23] Ibid. p. 60.
[24] DEL PINO. O Apostolado de Cristo e a Missão da Igreja. p. 63. Nota 23.
[25] Citado por STOTT. A Verdade sobre o Evangelho: um apelo à unidade. Curitiba: Encontro e São Paulo: ABU, 2000. p. 114.
[26] BRUCE. João. p. 335.
[27] VICEDOM. A Missão como Obra de Deus. p. 63.
[28] Citado por STOTT. A Verdade sobre o Evangelho. p. 115.
[29] Ver ERDMANN. Mission in John’s Gospel and Letters. p. 226.


Pr. Robson Rosa Santana

24 de novembro de 2008

Imortalidade da alma e estado intermediário


Nossa alma (ou espírito) é imortal· 

 Eclesiastes 3:11 “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim”.

· Mateus 10:28 “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo”.

Num sentido específico, somente Deus possui imortalidade, porque Ele é eterno (1 Tm 6:16), mas Ele nos dotou e nos revestiu de imortalidade também. Passamos a ser imortal depois que viemos a existir (1 Co 15:53-54; 2 Tm 1:10).

O que significa “dormir em Cristo”?
Os seguintes textos falam daqueles que morreram firmes na fé em Jesus. E Paulo diz que eles estão dormindo. Vejamos o que diz o comentarista William Hendriksen: “A morte dos crentes é com freqüência comparada ao dormir (Mt 27:52; Jo 11:11-13; At 7:60; 1 Co 7:39; 1 Co 15.6,18; confira também “descansar de seus labores”, Ap 14:13). A expressão tem por base a terminologia do Antigo Testamento com referência à morte (Gn 47:30; 2 Sm 7.12). A comparação que se faz da morte com o sono é especialmente apropriada ao subentender não somente o repouso do labor [trabalho], mas também o glorioso despertar que os crentes esperam ter no além. Este dormir não indica um estado intermediário de repouso inconsciente (sono da alma). Ainda que a alma esteja dormindo para o mundo que deixou (Jó 7.9; Is 7.15-17; 20:4), contudo ela está desperta [consciente] com respeito ao seu próprio mundo” (1 e 2 Tessalonicenses, Editora Cultura Cristã, p. 162, grifos meus). 

Veja os textos:
· Lucas 23:43 “Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”.
· João 14:3 “E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também”.
· 2 Coríntios 5:1, 8 “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer [morte física], temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus”... “Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor”.
· Filipenses 1:23 “Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”.
· Ver também a Parábola do rico e Lázaro, em Lucas 16:19-31, e Apocalipse 7:15-17; 20:4.

E quanto ao texto de João 3:13: “Ninguém subiu ao céu”?
  João 3.12-13 “Se, tratando de coisas terrenas, não me credes, como crereis, se vos falar das celestiais? Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem que está no céu”.

“Nenhum homem, portanto, está qualificado para falar das coisas celestiais (João 3.12). Falar dessas coisas requer conhecimento íntimo com elas – exige que as tenha VISTO; assim ninguém subiu ao céu e retornou, assim ninguém está qualificado para falar dessas coisas, exceto Aquele que desceu do céu. Isto não significa que ninguém tenha IDO ao céu e tenha sido salvo, porque Enoque e Elias subiram para lá (Gn 5:24; veja Hebreus 11:5; 2 Reis 2:11) e Abraão, Isaque e Jacó, e outros estão lá: porém significa que ninguém tenha subido e “retornado”, de forma que esteja qualificado para falar das coisas de lá” (A. Barnes).

· Gn 5:24 “Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si”.
· Hb 11:5 “Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado, porque Deus o trasladara...”
· 2 Reis 2:11 “Indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho”.

Moisés não subiu ao céu para receber a lei de Deus, mas no monte Sinai; ao passo que Jesus tinha vindo do céu para trazer a completa revelação para a salvação do homem:

· João 1:17-18 “Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”.

Conclusão
Aquele que morre em Cristo já está desfrutando de uma felicidade consciente e temporária junto ao Pai no céu, enquanto espera o grande dia em que Cristo voltará segunda vez à terra para ressuscitar seus corpos e entrar na plenitude da bênção, nas características iniciais que Deus criou o homem: corpo e alma.

Os que morrem sem a verdadeira salvação por meio de Jesus já começa a cumprir o juízo de Deus, mesmo em espirito (ou alma) no inferno. Quando chegar o Dia do Juízo Final - na segunda vinda de Cristo - seus corpos serão ressuscitados e unidos à alma e passarão a eternidade sofrendo as agruras do inferno de fogo na unidade psicossomática
 original: corpo e alma.

Robson Rosa Santana
IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL

O QUE A BÍBLIA DIZ SOBRE MODA, JÓIAS E ADORNOS

O Pr. Ricardo Gondim disse que certa vez foi para um congresso de jovens e havia uma animação natural em estarem reunidos. Aconteceu o período de louvor de forma a se sentir uma unção de Deus, e se preparavam para um dos momentos esperados, a pregação da Palavra de Deus. Mas o que eles receberam foi um “banho de água fria”.
Desejoso de ir contra o mundanismo, o preletor desaprovou os jovens de se vestirem bem e usarem qualquer tipo de adorno no corpo: “Deus exige santidade de seus filhos”, dizia o pastor. E mais: “as moças crentes que se entregarem à ‘vaidade’ não subirão ao céu no dia do arrebatamento. Esmaltes, brincos e lábios pintados são vaidade, e só vão para o céu os que não entregam a sua alma à vaidade”.
     Em algumas igrejas já não se diferencia doutrina de Deus, da doutrina dos homens. Há quem diga que a igreja que não se ajuste a esses usos e costumes não tem doutrina.
     Certa denominação, no seu regulamento interno, no tópico sobre santificação - apenas em dois itens - diz o seguinte:
     “Item P18 – Santificação – Bijouterias 
     “É proibido a irmãs ou irmãos, usarem brincos, pulseiras, colares, anéis, jóias ou outras bijouterias, e anel de formatura. É permitido o uso de alianças de noivos, casados, bodas de prata ou ouro e relógio de pulso. 1Tm 2.9; 1Pe 3.3; Jd 12; Rm 1.28; 1Co11.16; 1Ts 5.23.
      “Punição: Membros, 30 dias. Obreiros, 60 dias.”
      “Item P21 – Santificação – Vestuários Mundanas
      “Não é permitido às irmãs usarem calça comprida, seja qual for o serviço a ser executado, na roça, no sítio, na lavoura, na fábrica, no comércio, mesmo que seja em baixo do vestido ou para cortar cana, ou mesmo para dormir, e também usarem cintos largos, que chamem a atenção, e também usarem sapatos ou calçados vaidosos, tipo salto alto, ou botas até os joelhos, ou botas de salto alto. Dt 22.5; Rm 1.26; 1 Tm 2.9-10; Gl 5.22; Is 3.16; Gl 5.19-21; Tg 4.4.
      “OBS.: é permitido usar botas comuns de trabalho e também perneira de pano ou de couro.
      “Punição: ficarão fora da comunhão até deixar de usar)”.
      Será que servir a Deus é estar debaixo de um verdadeiro Código Penal Eclesiástico Legalista conforme algumas igrejas pregam? Como diz Ricardo Gondim (É Proibido, p.57), “Deus inúmeras vezes se valeu de metáforas nas quais se inseriram jóias, roupas caras e adereços, a fim de simbolizar sua bênção para o seu povo”.
     Citemos alguns textos: Ezequiel 16.8-14; Gn 13.2; Gn 24.22; Gn 41.42; Ex 28.4-6; Jr 2.32; Dn 5.16, 29;p Zc 3.4; Lc 15.22.
     Observando esses textos, é preciso perguntar: Se Deus não condena o uso de objetos finos ou moda, que por si só não são pecado, por que doutrinas humanas proíbem as mulheres de usarem? A resposta é clara: legalismo! Tão combatido por Paulo em Colossenses 2.20-23.
    “Os valores estéticos da Bíblia não estão ligados sempre à moralidade. Uma mulher bem vestida e adornada nos tempos bíblicos não representava vulgaridade e ou falta de temor a Deus” (Gondim, É Proibido, p. 65).
    
     E OS TEXTOS DE 1 TIMÓTEO 2.9-10 E 1 PEDRO 3.3-6?
     

     A. Comparação com outros textos
     Lucas 14.12: “...não convides os teus amigos...”. Compare com Lc 7.36: "Convidou-o um dos fariseus para que fosse jantar com ele. jesus, entrando da casa do fariseu, tomou lugar à mesa". Veja também Jo 12.2: "Deram-lhe, pois, ali, uma ceia; Marta servia, sendo Lázaro ums dos que estavam com ele à mesa".
    João 6.27: “trabalhai, não pela comida que perece...” Compare com 2 Ts 3.10-12: "Porque, quando ainda convosco, vos ordenamos isto: se alguém não quer trabalhar, também não coma. Pois, de fato, estamos informados de que, entre vós, há pessoas que andam desordenadamente, não trabalhando; antes, se intrometem na vida alheia.  A elas, porém, determinamos e exortamos, no Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando tranqüilamente, comam o seu próprio pão".
      Será a Biblia entra em contradição nesses textos? Vejamos a explicação a seguir.

      B. Expressões Idiomáticas nas Línguas Semíticas (semitismo)
     “Em muitas ocasiões, quando queriam comparar ou contrastar duas coisas, eles [judeus] deixavam de lado as palavras limitadoras e falavam coisas opostas para enfatizarem o que queriam dizer. Muitas vezes diziam ‘não... mas’ ou ‘não... sim’, quando o significado real era ‘nem tanto... mas muito mais’ ou ‘não primariamente (ou meramente ou apenas)... mas especialmente (ou muito mais ou também)” (Elizabeth Portela, O “Adorno”da Mulher Cristã: Proibição ou Privilégio, Fides Reformata, Julho-Dezembro de 1998, p.38).
     Uma tradução mais literal do texto bíblico original muitas vezes não comporta acréscimos que não estavam no texto, o que na tradução para outro idioma como o português leva a crer que há contradição com outros textos, que na verdade não existe, pois é apenas uma questão de expressão idiomática.

      Aplicação aos textos de 1 Timóteo e 1 Pedro
     “Da mesma sorte, que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não [tanto] com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, porém [muito] mais com boas obras..." (1Tm 2.9-10).
     “Não seja o adorno da esposa [primeiramente] o que é exterior, como frisado de cabelos, adereços de ouro, aparato de vestuário; seja, porém, [infinitamente mais] o homem interior do coração, unido ao incorruptível de um espírito manso e tranqüilo, que é de grande valor diante de Deus” (1Pe 3:3-4)
     
       Conclusão
       A Bíblia não proíbe o uso de adornos, jóias e certas roupas proibidas por algumas denominações evangélicas, na verdade há muitos textos que descrevem a existência e o uso desses adereços entre o povo de Deus. Creio que o ponto central da cntrovérsia sobre o assunto, jaz na motivação da mulher ao vestir e se ornamentar, como já orientou Paulo a Timóteo: "em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso" (1Tm 2.9).

Pr. Robson Rosa Santana

12 de novembro de 2008

A SALVAÇÃO É DO SENHOR

Por Charles Spurgeon

...E se Deus exigisse do pecador – morto em pecado – que ele desse o primeiro passo, então Ele tornaria a salvação impossível sob o evangelho como sempre foi sob a lei. Vendo que o homem está tanto incapaz de crer quanto para obedecer, e está exatamente tanto sem poder para vir a Cristo quanto está sem poder para ir ao céu sem Cristo. O poder deve ser dado ao homem do Espírito. O homem jaz morto em pecado; o Espírito tem de reavivá-lo. Ele está com as mãos e os pés atados, aguilhoado pela transgressão; o Espírito Santo tem de cortar os grilhões e então o homem saltará para a liberdade. Deus tem de vir e destruir as trancas de ferro para fora de seus encaixes, e então ele pode escapar depois. A não ser que a primeira coisa seja feita por Deus, o homem pode perecer tão certamente sob o evangelho quanto teria sido sob a lei. Eu cessaria de pregar se eu acreditasse que Deus, em matéria de salvação, exigisse alguma coisa do homem que Ele próprio não tivesse igualmente comprometido a fornecer ...
Eu sou o mensageiro, eu lhes digo a mensagem do Mestre; se vocês não gostam da mensagem discutam com a Bíblia, não comigo. Enquanto eu tiver as Escrituras a meu favor, eu ousarei e desafiarei vocês a fazer algo contra mim. “A Salvação é do Senhor”. O Senhor tem de aplicá-la, tornando o insubmisso em submisso, tornando o não-devoto em devoto e trazendo o vil rebelde aos pés de Jesus.

Word Of Life Baptist Church Web Site – Frank Zaspel 1996
Tradução: Robson Rosa Santana

UNIÃO COM CRISTO

A união com Cristo (ou união mística) é uma doutrina que se deve estudar dentro da aplicação da obra de Cristo na vida dos eleitos, ou seja, da Soteriologia. John Murray diz que “a união com Cristo é a verdade central de toda a doutrina da salvação, não somente em sua aplicação, mas também de sua realização uma vez por todas na obra consumada de Cristo”.[i]

RAIZ DA UNIÃO COM CRISTO

A raiz desse ensino está explícita em vários textos do Novo Testamento. Podemos ver isso quando observamos textos que falam que os crentes estão em Cristo ou que nós estamos nele[ii]. A raiz, contudo, dessa união, jaz na eleição de Deus feita em Cristo. Efésios 1.3, 4 diz: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo” (itálicos meus).

Nesse texto aprendemos que os cristãos foram eleitos antes da fundação do mundo, e essa eleição foi feita em Cristo. Deus nos escolheu para a salvação baseado unicamente na predeterminada união com Cristo. Desse modo, vemos que a união de Cristo com o seu povo tem sua raiz no decreto eterno.

1. Raiz no Conselho Eterno da Redenção

“No conselho de paz Cristo se incumbiu voluntariamente de ser a Cabeça e o Penhor dos eleitos, destinados a constituir a nova humanidade”[iii], e desse modo, Cristo estabeleceu a justiça desta perante o Pai. Assim, Ele cumpriu a pena pelo seu pecado, prestando obediência à lei, garantindo o direito à vida para os eleitos.

2. Raiz Estabelecida Idealmente no Conselho Eterno

“Como o primeiro Adão, Ele (Cristo) não representou uma aglomeração de indivíduos disjuntos, mas um corpo de homens e mulheres que deveriam derivar sua vida dele, estar unidos por laços espirituais, formando, assim, um organismo espiritual. Idealmente, este corpo, que é a igreja, já estava formando na aliança da redenção, e isto em união com Cristo, e esta união possibilitou que todas as bênçãos merecidas por Cristo pudessem passar de maneira orgânica para aqueles que Ele representou”.[iv]

A BASE DA UNIÃO COM CRISTO

A base dessa união foi concretizada objetivamente na encarnação e na obra redentora de Cristo. Uma vez que legalmente a união com Cristo foi decretada na eternidade, Cristo assumiu a natureza humana para ser o substituto pelo pecado de Seu povo, e, assim, alcançar as bênçãos da salvação para eles. Jesus alcançou a salvação para o Seu povo porque já estava em “relação com eles como seu Penhor e seu Mediador, sua Cabeça e seu Substituto”[v]. Quando Cristo morreu toda a igreja estava incluída nele como sua Cabeça. Desse modo, objetivamente, a igreja foi crucificada com Cristo, morreu com ele (Rm 6.5), ressuscitou e assentou-se com Ele nas regiões celestes (Ef 1.3).

REAL UNIÃO COM CRISTO
Essa união se torna real quando da operação do Espírito Santo. É Ele quem aplica esse aspecto da obra redentora de Cristo. Calvino ressalta que somente nos aproveitamos dessa obra quando ocorre uma ação secreta do Espírito Santo na vida pecador. Ele mesmo diz:
“Portanto, para que possa comunicar-nos os bens que recebeu do Pai, é preciso que Ele (Jesus) se faça nosso e habite em nós. Por esta razão é chamado “nossa Cabeça” e “primogênito entre muitos irmãos”; e de nós se afirma que somos “inxertados nEle” (Rm 8.29; 11.17; Gl 3.27); porque, segundo tem dito, nenhuma dessas coisas que possui nos pertencem, nem temos a ver com elas, enquanto não somos feitos uma só coisa com Ele”.[vi]

Então percebemos que a união com Cristo se dá quando o Espírito nos comunica uma nova vida. Assim compara Michael Horton: “a união com Cristo descreve a realidade sobre a qual Paulo escreveu em Romanos 6. Como um marido e sua esposa estão unidos por meio do casamento e os pais e seus filhos estão unidos por meio do nascimento, assim estamos unidos com Cristo por meio do batismo do Espírito”[vii].

Antes de adentrarmos nas conseqüências da união com Cristo, vejamos sua definição de acordo com Louis Berkhof. Segundo ele, “a união mística é uma união íntima, vital e espiritual entre Cristo e o Seu povo, em virtude da qual Ele é a fonte de sua vida e poder, da sua bendita ventura e salvação”.[viii] Ela é mística porque é efetuada pelo Espírito Santo de modo misterioso e sobrenatural, e “porque transcende, e muito, todas as analogias das relações terrenais, na intimidade da sua conexão, no poder transformador da sua influência, e na excelência das suas conseqüências”.[ix]

Gostaria de acrescentar que nem todos os reformados (calvinistas) vêem a união mística do modo como expomos, separando em raiz (aspecto legal), base (aspecto objetivo), e real (aspecto subjetivo), mas incluindo todos esses aspectos como a união com Cristo. Berkhof é um dos teólogos reformados que pensa assim. No entanto, ele mesmo enfatizou que “geralmente ela indica unicamente o aspecto máximo dessa união, a saber, a sua realização subjetiva pela operação do Espírito Santo, e, naturalmente, é esse aspecto que está no primeiro plano da soteriologia”[x].

Anthony Hoekema discorda das quatro fases que fala Berkhof, pois reserva às três primeiras fases como raiz e base da união mística projetada, mas não ocorrida.[xi] Pois, efetivamente a união mística com Cristo só ocorre com um grupo humano existente no tempo e no espaço. Como diz Murray, “embora tivessem sido eleitos em Cristo antes dos tempos eternos, todavia estavam sem Cristo até que foram eficazmente chamados à comunhão do Filho de Deus (1 Co 1.9)”.[xii]

AS CONSEQUENCIAS DA UNIÃO MÍSTICA

Sabemos que as conseqüências da união que os crentes têm com Cristo são maravilhosas, e gostaríamos de mostrar o que as Escrituras nos ensinam:

1. Um Corpo em Cristo

É em Cristo que ocorre uma união orgânica, não somente individual, mas de todos os eleitos, formando, assim, um corpo, do qual Cristo é a cabeça. O caráter orgânico é ensinado em passagens como Jo 15.5; 1 Co 6.15-19; Ef 1.22, 23, entre outras. Essa união destaca que “Cristo atende aos crentes, e os crentes atendem a Cristo”.[xiii] Cada parte do corpo serve umas às outras, e todas juntas servem ao corpo todo numa união indissolúvel. Isso resulta na comunhão com Cristo e na comunhão dos santos. Comunhão vertical e horizontal, se assim podemos dizer.

2. Nova Vida em Cristo

Cristo é a vida (Jo 10.10; 14.6). Em Cristo temos vida abundante, fora dele estamos mortos em nossos delitos e pecados (Ef 2.1). Logo, Cristo é o “princípio vitalizador e dominante de todo o corpo de crentes”,[xiv] nos conduzindo em direção a Deus (Rm 8.10; 2 Co 13.5, Gl 4.19, 20).

3. Santificação em Cristo

Se temos nova vida com Cristo, devemos andar continuamente em novidade de vida. Essa novidade de vida é o processo do qual o Espírito Santo nos renova progressivamente e nos habilita a viver para a glória de Deus (Rm 11.36). E isso se dá porque estamos em Cristo. Desenvolvendo o assunto, Hoekema diz que “santificação através da união com Cristo (...) significa que nossos dons e habilidades são progressivamente burilados, desenvolvidos e purificados de forma que nos tornemos melhores ‘nós’”.[xv]

4. Justificação em Cristo

A Bíblia nos ensina que não podemos separar nossa justificação da união com Cristo (Fp 3.8-9). Paulo ilustra bem esse fato em 1 Co 1.30: “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”. “Somos salvos porque estamos em Cristo, o qual se tornou nossa justiça (ou justificação) só porque estamos nele”.[xvi]

5. Perseverança em Cristo

A Bíblia diz que os crentes perseveram até a morte porque estão em união com Cristo (Jo 10.27, 28; Rm 8.30-39). Diz Hoekema: “Se estamos em Cristo perseveraremos até o fim, uma vez que nenhum poder criado nem possível futuro (‘nem as coisas do presente, nem do porvir...’) será capaz de alguma forma, de separar-nos de Cristo e do amor de Deus que está em Cristo”.[xvii]

6. Morte em Cristo

Mais uma vez aprendemos de Paulo esse ensinamento: “Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 13.8). Não só morremos para ele e nele, mas mesmo depois de mortos “somos do Senhor”. Desse modo, quando morremos, morremos em Cristo (1 Ts 4.16; Ap 14.13).

7. Ressurreição em Cristo

Em certo sentido já fomos ressuscitados em Cristo (Cl 3.1; Ef 1.20), mas há uma ressurreição de nossos corpos quando da sua volta. Assim, os que morreram em Cristo, ressuscitarão com ele também (1 Ts 4.16, 17).

8. Glorificação em Cristo

1 Ts 4.16 diz que os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. O verso 17 diz que depois os vivos serão arrebatados, “e, assim, estaremos para sempre com o Senhor”. Romanos 8.17 também afirma que “com ele seremos glorificados”. “A glória futura será, portanto, nada mais do que a continuação dos desdobramentos das riquezas de nossa união com Cristo”.[xviii]


Desse modo, finalizamos dizendo que a união com Cristo tem sua origem na eleição do Pai, em Cristo, antes da fundação do mundo, e culmina na glorificação dos crentes por toda a eternidade.

Conclusão

A conclusão a que chegamos é que o estudo da união com Cristo nos leva a sermos gratos imensamente ao Deus Triúno. Como diz o apóstolo Paulo: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente” (Rm 11.36). De Deus procede toda iniciativa de buscar e salvar o perdido. Por meio de Cristo nós nos chegamos até Ele, pois Cristo é o nosso mediador. Essa mediação é aplicada pelo Santo Espírito, e, assim, gozamos da comunhão com Ele. Por isso, tudo o que Deus fez em nós deve nos levar a louvar e a adorar ao Seu santo nome.

Essa gratidão deve ser demonstrada na proclamação das virtudes de Deus e através de uma vida de santificação. Como ato, a santificação ocorre quando nos unimos a Cristo por meio do Espírito Santo, nos separando para Ele. Esse é um ato soberano do Espírito. Mas, como um processo, que dura enquanto estivermos sobre a terra, é uma ação conjunta do Espírito com o crente, como dizem os teólogos é um processo sinergístico. Por isso, essa busca de santidade deve ser o reconhecimento de que estamos em Cristo e Ele está em nós, então vivamos pela fé nele.
Se realmente o crente entender o caráter de Deus demonstrado através de Cristo e da ação interna do Espírito, ele irá buscará viver para a glória de Deus, que com amor eterno o amou.
Notas

[i] John Murray, Redenção: consumada e aplicada, (São Paulo: Cultura Cristã, 1993), 179.
[ii] 2 Co 5.17; Jo 15.4,5,7; 1 Co 15.22; 2 Co 12.2; Gl 3.28; Ef 1.4; 2.10; Fp 3.9; 1 Ts 4.16, 1 Jo 4.13
[iii] Berkhof, Teologia Sistemática, (Campinas: Luz Para o Caminho, 1990), 450.
[iv] Ibid.
[v] Ibid.
[vi] Juan Calvino, Institución de la Religión Cristina, (Barcelona: FELIRE, 1994), III, i, 1.
[vii] Michael Horton, ed., Cristo o Senhor, (São Paulo: Cultura Cristã, 2000), 107.
[viii] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, 451.
[ix] A. A. Hodge, Outlines of Theology, (Grand Rapids: Zondevan, 1979), 483.
[x] Berkhof, Teologia Sistemática, 452.
[xi] Diz ele: “Minha dificuldade com a apresentação de Berkhof é que as primeiras três fases da união com Cristo, como ele alista, são descrições de uma união projetada que ainda não ocorreu. Real união com Cristo só pode ocorrer com pessoas reais”. Anthony Hoekema, Salvos pela Graça, (São Paulo: Cultura Cristã, 1997), 62
[xii] John Murray, Redenção: consumada e aplicada, 183-184.
[xiii] Berkhof, Teologia Sistemática, 452.
[xiv] Ibid.
[xv] Salvos pela Graça, 69.
[xvi] Hoekema, Salvos pela Graça, 68.
[xvii] ibid., 70.
[xviii] ibid., 71.

REINO DE DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO

A proposta deste ensaio é tratar sobre o Reino de Deus numa perspectiva da Teologia Bíblica do Antigo Testamento. Estaremos expondo a respeito do termo “Reino” no Antigo Testamento, a compreensão do reinado de Deus nesse tempo e um vislumbre do cumprimento messiânico na pessoa de Cristo, o Reino escatológico.

O termo “reino” no hebraico é malkuth, tem o sentido de “poder soberano”. Tem por raiz %lm (mlk), que está relacionada com “rei”, “reino”, “domínio real”, “soberania”.[1] Esses usos ocorrem de acordo com as variações da raiz. Em linhas gerais, o termo tWkl.m é usado para denominar tanto reis humanos (e.g., Dn 9.1; Et 5.1; Ez 26.7; 1 Cr 12.23), como ídolos religiosos, tal como Molek, no português Moloque, um deus amonita ao qual até reis de Israel sacrificaram seus filhos no vale de Hinom (1 Rs 11.7; 2 Rs 23.10).

O que nos importa aqui é a relação entre Deus e Reino. No Antigo Testamento vários textos nos dão conta de que Deus é Rei. Gostaríamos de dar pelo menos três dimensões do reinado de Deus: (1) reinado sobre Israel e os que a compõe individualmente (Sl 5.3; 10.16; 44.5; 48.3); (2) reinado sobre toda a terra (Sl 47.3, 8; 97.1; 99.1); (3) reinado sobre Israel referindo-se ao Messias (Sl 2.6; 18.51).

Nas palavras de Gerard van Groningen, “Deus é o rei por virtude de quem e o que Ele é como Deus; porque Ele criou, sustenta, governa, controla e dirige todas as coisas na criação; porque Ele é o Senhor da redenção; e porque ele é o Consumador e o Juiz final e absoluto de toda a humanidade, coisas e eventos”.[2] Deus é Rei não por instituição, mas por Aquilo que Ele é por natureza, e não poderia deixar de ser.

Não se pode deixar de incluir um dentro do aspecto da criação, a idéia da vice-regência da humanidade nomeada e estabelecida por Deus, “criada à sua imagem e designada para servir sob e com o Criador”.[3] Vemos esse aspecto nos mandatos que Deus deu para o homem. Não podemos limitar a ordem que Deus deu a Adão e Eva somente a não comerem do fruto proibido. Pois há outros mandatos que demonstravam que o homem era vice regente no reinado de Deus sobre a criação. São estes os mandatos: cultural (Gn 2.15), social (Gn 2.24) e espiritual (2.3; 2.16).

Mas além dessa dimensão da vice regência sob a criação terrena, e de reinado de Deus sobre todo o universo, há um aspecto do Reino especificamente redendivo. Obviamente, isso se deu após a queda relatada em Gênesis 3. Geerhardus Vos diz que normalmente que este é chamado ‘a Teocracia’, e “a primeira referência explícita ao Reino redentivo aparece no tempo do êxodo, Ex 19.6, onde Jehovah promete ao povo, que, se obedecerem Sua lei, eles serão feito para Ele ‘um reino de sacerdotes’”.[4] Jehovah Deus fala isso na proximidade da doação da Lei no Sinai, registrado no capítulo vinte. Esse é o ponto de vista presente do Reino do Antigo Testamento.

Numa perspectiva futura vemos uma relação do Reinado de Deus com o trono de Israel. Referindo-se a Davi e sua linhagem, Deus diz: “mas o confirmarei na minha casa e no meu reino para sempre, e o seu trono será estabelecido para sempre” (1 Cr 17.14; ver também 1 Cr 28.5; 1 Rs 2.12; 2 Cr 9.8). Quando Salomão estava prestes a subir ao trono, o Cronista relata: “Pela segunda vez fizeram rei a Salomão, filho de Davi, e o ungiram ao Senhor por príncipe, e Zadoque por sacerdote. Salomão assentou-se no trono do Senhor, rei, em lugar de Davi seu pai” (1 Cr 29.22-23). Desse modo, percebe-se que o Cronista não se restringe a dizer que Salomão, da linhagem de Davi, ‘assentou-se no trono de Israel, povo do Senhor’. Não, ele foi mais longe e específico. Salomão assentou-se “no trono de Jehovah como rei”. Nas palavras de O. Palmer Robertson, “o trono dos descendentes de Davi não era nada menos do que o trono do próprio Deus”.[5]

O Antigo Testamento também aponta para um Reino escatológico. É o reino messiânico. Vários textos proféticos apontam para um Rei-Messias. Enquanto os reis da linhagem de Davi estão se desvanecendo em sua desobediência à Lei de Deus, os profetas anunciam a promessa do “Ungido” de Deus. Pois “virá um ocupante maior do trono de Davi. Irá assentar-se para sempre no trono de Davi, seu pai. Reinará com justiça sobre toda a terra. Fundirá o trono de Deus com o seu, porque será Emanuel, Deus-poderoso, Deus mesmo”.[6]

Chegamos à conclusão que o tema é abrangente e cativante. É difícil conceituar o Reino de Deus, mas como vimos, envolve domínio sobre tudo e todos. Primeiro, Deus reina como Criador sobre a Sua criação. Segundo, envolve Seu povo, Israel, como sacerdotes perante Ele, ou seja, a Teocracia. Em terceiro, quando Israel torna-se uma monarquia, o trono do Senhor passa a associar-se com aquele. E, por último, o Antigo Testamento aponta para o reino messiânico, personificado na pessoa do Senhor Jesus. Segundo W. T. Conner, em seu livro O Evangelho da Redenção (p.90), “Jesus mesmo era a personificação do reino. O reino não é inseparável de sua pessoa… Sua vinda e obra eram a iniciação do reino. Sua presença e obra que agora faz na história são o progresso do reino. Sua manifestação final será a culminação do reino e a iniciação do reino eterno”.[7] Desse modo, o Reino em todas as suas dimensões se cumprem em Cristo, “todo o reino universal de Deus converge para Jesus”.[8]

BIBLIOGRAFIA
Brown, Colin, ed. ger., Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998.
Padilla, René, e Carlos del Pino, Reino, Igreja, Missão, 1a edição, Goiânia: SPBC, 1998.
Robertson, O. Palmer, Cristo dos Pactos, 1a edição, trad. Américo J. Ribeiro, Campinas: Luz Para o Caminho, 1997.
van Groningen, Gerard, Revelação Messiânica no Velho Testamento, Campinas: LPC, 1995.
Vos, Geerhadus, Theological Biblical: Old and New Testament , Edinburgh: The Banner of Truth, 1975.

CITAÇÕES
[1] Ver esses conceitos em R. D. C, “Melek”, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 1998), 840-841.
[2] Gerard van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento (Campinas: LPC, 1995), 56.
[3] Ibid.
[4] Geerhadus Vos, Theological Biblical: Old and New Testament, (Edinburgh: The Banner of Truth, 1975), 373. Minha tradução.
[5] O. Palmer Robertson, Cristo dos Pactos (Campinas: LPC, 1997), 225.
[6] Ibid. Ver, e.g., Am 9.11ss.; Os 1.11; 3.4ss.; Mq 4.1-3; 5.2; Is 7.14; 9.6; 11.1-10; Jr 23.5, 6; 33.15-26; Ez 34; 37.24, entre outras passagens.
[7] Citado por Carlos del Pino, em Reino, Igreja, Missão, (Goiânia: SPBC, 1998), 20.
[8] Ibid., 21.

ENSAIO INTRODUTÓRIO AO ESTUDO DO PACTO

O objetivo desse ensaio é fazer uma breve introdução acerca do Pacto numa perspectiva da Teologia Bíblica. Estaremos discutindo o assunto tratando exegeticamente do termo “Pacto”, qual o seu significado e bases bíblicas. Estaremos discutindo também as Alianças da Criação e da Redenção. Esta última feita por Deus com Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi e Cristo, onde mostraremos que é somente uma que se consuma na obra de Cristo, o mediador da nova aliança. A proposta desse ensaio é dar apenas uma introdução, logo, estaremos trazendo o resultado de uma pesquisa que se adequa ao conceito reformado, e, não, uma discussão de posições, salvo rara exceção.

O primeiro passo é analisar a palavra hebraica berît - pacto, aliança. Ela aparece cerca de 290 vezes no Antigo Testamento. Quanto ao significado, a mais aceita pelos estudiosos é que ela está relacionada com a palavra acadiana birtu, que significa “laço”, “vínculo”, ou seja, “estabelecer uma situação legal por meio de um testemunho acompanhado de juramento”.[1] Do mesmo modo que há dificuldades para estabelecer a origem e o significado da palavra berît, surge também uma dificuldade quanto ao que se quer dizer com pacto ou aliança. Será que quer dizer que esse acordo é “bilateral”? No próprio texto bíblico e na história antiga o termo pode significar aliança entre nações, entre indivíduos e entre Deus e o homem. Nos dois primeiros casos essa aliança podia ser de igual para igual, mas quando partimos para a aliança feita entre Deus e o homem, o conceito bilateral é abandonado. “A bilateralidade, no contexto do pacto entre Deus e homens, implica tão somente em que duas partes estão envolvidas, mas não que exista igualdade entre as partes. (…) Nesse sentido a aliança divino-humana é unilateral”.[2] Desse modo a Aliança é um compromisso de iniciativa de Deus para com a sua criação, especialmente com aqueles que foram criados a sua imagem e semelhança.

Essa iniciativa se torna evidente em Gn 17.2, cuja tradução na ARA é: “farei uma aliança entre mim e ti”. O verbo traduzido por “fazer” é derivado do hebraico nathan, que significa “dar”. Logo, a ênfase do verbo fazer no português recai sobre o fato de que é algo dado por Deus, que reflete a unilateralidade do pacto. Comentando Gn 15.17, Derek Kidner diz: “Simbolicamente, só Ele faz a aliança. Salientam-se a Sua iniciativa e a Sua dádiva, como esclareceu v.18, em contraste com a aliança do tipo contrato de, digamos, 31.44”.[3] Desse modo, podemos conceituar Aliança como vínculo de amor e vida iniciado e administrado soberanamente por Deus com os seres humanos[4].

Depois de analisado o termo berît e de seu conceito bíblico, gostaríamos de analisar brevemente o Pacto da Criação e Pacto da Redenção. A primeira questão que surge é se é justo falar de um Pacto da Criação, quando a palavra aliança só aparece em Gênesis 6. Apesar de não aparecer a palavra berît antes de Gn 6 pode-se concluir que intrinsecamente está inserida no relato da criação. Primeiro, ao criar Deus manteve um relacionamento, não só enquanto criava Ele mantinha a ordem das coisas que criava até que tivessem leis próprias, mas continua sendo o “sustentador de todas as coisas”. Segundo, quando criou o homem deu-lhe a capacidade de pensar, obedecer, discernir e optar. É justamente isso a “imagem e semelhança” de Deus no homem, que lhe dava a capacidade de se relacionar com Ele. Terceiro, Deus criou o homem como macho e fêmea e lhes deu responsabilidades como procriação, multiplicação e domínio (Gn 2.15,19). Por fim, todos esses tipos de relacionamentos deixam claro que poderiam advir bênçãos e maldições. Características estas de pactos do antigo Oriente Médio. Isso reflete três tipos de mandatos: cultural, social e espiritual. “Essas características (soberania, sustento, relacionamento, responsabilidade, bênçãos e maldições) formam o conjunto de elementos do chamado pacto da criação”.[5] Poderíamos analisar outros textos que falam do pacto da criação, como Os 6.7; Jr 33.20, 25; e Gn 6.18, mas não cabe na proposta desse ensaio.

O Pacto da Redenção é uma conseqüência primeira da falha do homem em cumprir o Pacto da Criação. O pacto da Redenção é também chamado de “Pacto da Graça”, pois uma vez que o homem não cumpriu o primeiro e mereceria as maldições do pacto, Deus agiu com graça e misericórdia. Vemos nas Escrituras Deus fazendo alguns pactos com homens que representam o povo de Deus: Adão, Noé, Abraão, Moisés e Davi, por fim, o Seu próprio Filho. Cada uma dessas alianças não significa uma ruptura da aliança anterior, mas continuidade e desenvolvimento. Como diz Robertson, “quando Deus institui uma nova aliança com a nação de Israel, ordena a ocasião, de sorte que reflita especificamente a continuidade, e não a descontinuidade, com o passado”.[6] Conforme o próprio Robertson, cada aliança com os personagens bíblicos, que são tipos de Cristo, têm um significado primário.
Adão: aliança do começo.
Noé: aliança da preservação.
Abraão: aliança da promessa.
Moisés: aliança da Lei. Por fim,
Jesus Cristo: aliança da consumação ou nova aliança.
Desse modo, podemos concluir que se o Pacto da Redenção é um novo elemento dentro do Pacto da Criação, “seu princípio, suas estipulação, seus mandatos, assim como seu propósito original para a raça humana e, de maneira especial, para a semente escolhida da qual viria a redenção final”.[7] Em suma, “o mandado da redenção relembra e repete o que está contido no pacto da criação, a saber, que o redimido instrua e prepare seus filhos para o serviço”.[8]

A conclusão a que chegamos é que Deus é imutável em seus decretos. Ele fez uma aliança com o homem em Adão que foi quebrada, mas não mudou os Seus planos. Manifestou graça e misericórdia, continuou a aliança com o homem e constituiu um povo exclusivamente para Si. Apesar das sucessivas rebeliões e quebra das Suas sucessivas alianças, Deus desenvolve o propósito de redenção que encontra seu estágio final em Seu Filho Jesus Cristo. Por isso, é apropriado chamar a aliança em Cristo de “aliança da consumação”, uma vez que une as dimensões da promessa de aliança ao povo de Israel, suplantando, assim, as alianças anteriores.

BIBLIOGRAFIA
Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, Lairds, Archer Jr e Waltke ed., ,1a ed., São Paulo: Vida Nova, 1998.
Kidner, Derek, Gênesis: introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova, 1979.
Meister, Mauro F., “Uma Breve Introdução ao Estudo do Pacto”, em Fides Reformata, 3/1 (Janeiro-Junho 1998).
­­­­­­­­­­­­­­­­­­_______________ , Uma Breve Introdução ao Estudo do Pacto (II)”, em Fides Reformata, 4/1 (Janeiro-Junho 1999).
Robertson, O. Palmer, Cristo dos Pactos, 1a ed., trad. Américo J. Ribeiro, Campinas: LPC, 1997.
van Groningen, Harriet e Gerard, Família da Aliança, 1a ed, trad. Maria Priscila Barro, São Paulo: Cultura Cristã, 1997.
_____________, Gerard, Revelação Messiânica no Velho Testamento, 1a ed., trad. Cláudio Wagner, Campinas: Luz Para o Caminho, 1995.


CITAÇÕES
[1] CAD, baru, p.125, citado por Elmer B. Smick, “berît”, em Lairds, Archer Jr e Waltke ed., Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, 215.
[2] Mauro F. Meister, “Uma Breve Introdução ao Estudo do Pacto”, em Fides Reformata, 3/1 (Janeiro-Junho 1998), 117.
[3] Derek Kidner, Gênesis: introdução e comentário, (São Paulo: Vida Nova, 1979), 117.
[4] Esse é basicamente os conceitos de Meister, “Uma Breve Introdução ao Estudo do Pacto”, 119; e de Harriet e Gerhard van Groningen, Família da Aliança, 27. O. Palmer Robertson difere dos dois quando diz que “Aliança é um pacto de sangue soberanamente administrado”, ou seja, de vida e morte, Cristo dos Pactos, 18.
[5] Meister, “Uma Breve Introdução ao Estudo do Pacto”, 120.
[6] O. Palmer Robertson, Cristo dos Pactos, 31.
[7] Mauro F. Meister, “Uma Breve Introdução ao Estudo do Pacto (II)”, em Fides Reformata, 4/1 (janeiro-junho, 1999), 102.
[8] Gerard van Groninger, Revelação Messiânica no Velho Testamento (Campinas: Luz Para o Caminho, 1995), 57.