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Introdução:
Por que plantar e multiplicar igrejas?
Nas últimas palavras que proferiu antes de ascender aos céus, Jesus Cristo
deixou aos seus discípulos — e a nós, dois mil anos depois — um mandato que não
admite meio-termo nem acomodação. Segundo o relato de Mateus, Jesus,
aproximando-se, falou-lhes, dizendo: "Toda a autoridade me foi dada no céu
e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os
em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as
coisas que tenho ordenado a vocês. E eis que estou com vocês todos os dias até
o fim dos tempos" (Mateus 28.18-20, NAA).
A ordem de Jesus não é "façam um culto" ou "façam um evento
evangelístico". A ordem é “façam discípulos de todas as nações”. E
discípulos, na dinâmica do Novo Testamento, não vivem soltos: eles são
batizados, reunidos, pastoreados, disciplinados e enviados dentro de
comunidades organizadas — em outras palavras, dentro de igrejas locais. Não
existe, nas Escrituras, um plano de discipulado das nações que não passe pela
multiplicação de igrejas.
Foi exatamente esse o padrão que vemos em Atos dos Apóstolos. Antes de subir ao
céu, Jesus prometeu: "Mas vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o
Espírito Santo, e serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a
Judeia e Samaria e até os confins da terra" (Atos 1.8, NAA). O livro de
Atos é, do primeiro ao último capítulo, a narrativa de como aquela promessa se
cumpriu — não pela multiplicação de discípulos isolados, mas pela multiplicação
de igrejas: em Jerusalém, depois em Samaria e Antioquia, depois pela Ásia
Menor, pela Macedônia, pela Acaia, até chegar a Roma.
O apóstolo Paulo, o maior plantador de igrejas do Novo Testamento, tinha uma
ambição declarada: "esforçando-me, deste modo, por pregar o evangelho, não
onde Cristo já foi anunciado, para não edificar sobre alicerce alheio"
(Romanos 15.20, NAA). Ele não estava interessado apenas em pregar; estava
interessado em ver igrejas nascendo onde ainda não havia nenhuma. E, ao mesmo
tempo, reconhecia que o crescimento dessas igrejas não dependia de técnica
humana: "Eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus. De modo
que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o
crescimento" (1 Coríntios 3.6-7, NAA).
Essa é a tensão saudável em que a igreja evangélica precisa viver: plantamos e
regamos com estratégia, disciplina e trabalho árduo — mas é Deus quem dá o
crescimento. É por isso que uma congregação local não pode se dar por
satisfeita apenas em subsistir, cuidar de si mesma e manter seus programas
internos funcionando. Uma igreja fiel à Grande Comissão vive com o coração
voltado para fora: para o bairro sem testemunho evangélico, para a cidade
vizinha sem uma igreja bíblica, para a próxima geração de plantadores e
presbíteros que precisa ser formada. Como o apóstolo orientou Tito: "Foi
por esta causa que deixei você em Creta: para que pusesse em ordem as coisas
restantes, bem como, em cada cidade, constituísse presbíteros, conforme
prescrevi a você" (Tito 1.5, NAA) — o evangelho avança quando levanta
liderança local, cidade após cidade.
O quadro que orienta este artigo — as "Sete Estações da Plantação e
Multiplicação de Igrejas", desenvolvido no âmbito de ministérios
reformados/presbiterianos de plantação de igrejas (Global Church Advancement,
sob Steven L. Childers e J. Allen Thompson) — não substitui a teologia bíblica
da igreja, mas oferece algo que muitas igrejas carecem: um roteiro prático, com
etapas reconhecíveis, para que pastores, presbíteros, diáconos e — de modo
especial — a liderança leiga entendam onde estão, o que falta amadurecer e para
onde precisam caminhar.
As
sete estações do processo
O quadro descreve a trajetória de uma igreja como o crescimento de uma árvore:
da semente à árvore frutífera que multiplica novas árvores. São sete estações,
cada uma com pessoas envolvidas, processos próprios, um tempo estimado e um
objetivo (meta) a alcançar.
1. Preparando — plantando a semente (6 a 12 meses)
Tudo começa antes do primeiro culto público. Nesta fase, o plantador (muitas
vezes acompanhado de um mentor) confirma seu chamado e sua visão, define o
público-alvo e a região de plantio, dedica-se à oração, recebe treinamento
específico para plantação de igrejas, desenvolve sua filosofia de ministério,
elabora um plano de ação e uma proposta formal de plantio, e constrói uma base
de sustento financeiro e de intercessores.
Meta da estação: um plantador qualificado e preparado, com uma
visão clara e uma estratégia definida.
2. Reunindo — reunindo uma comunidade de adoração (6 a 12 meses)
Com a preparação feita, o plantador reúne uma equipe de lançamento (o
"launch team"): treina os primeiros colaboradores, estabelece
relações de mentoria, faz evangelismo relacional para formar uma rede de
contatos, organiza pequenos grupos e ministérios essenciais, administra os
primeiros conflitos internos, alinha valores em torno de uma visão comum e, por
fim, lança o culto público.
Meta da estação: uma comunidade adoradora reunida, com os
ministérios essenciais já em funcionamento.
3. Desenvolvendo — ministérios centrados no evangelho (1 a 2 anos)
Aqui a igreja passa a investir na formação de discípulos em todas as idades:
cultiva uma cultura de oração ativa desde a linha de frente da vida da igreja,
prega e ensina o evangelho com clareza, forma comunidades de aprendizagem
transformadora, desenvolve pequenos grupos de cuidado genuíno, promove
evangelismo integral — de palavra e de ação, conforme as necessidades reais da
comunidade —, capacita ministérios leigos e dons espirituais, e começa a criar
as estruturas funcionais de que a igreja vai precisar para crescer de forma
organizada.
Meta da estação: ministérios eficazes do evangelho, sustentados
por líderes emergentes que já não dependem apenas do plantador.
4. Mentoreando — formando líderes centrados no evangelho (2 anos, de forma
contínua)
À medida que a igreja cresce, cresce também a necessidade de multiplicar
liderança. Esta estação é dedicada a desenvolver uma filosofia e uma estratégia
de mentoria, e a criar processos de acompanhamento específicos para discípulos
em geral, para líderes de pequenos grupos, para presbíteros e diáconos, e para
líderes que um dia liderarão o próprio movimento de multiplicação.
Meta da estação: líderes ordenados e capacitados, supervisionando
uma igreja saudável e verdadeiramente local (autócne, no sentido de já não
depender de fora).
5. Crescendo — liderando a igreja ao crescimento (contínua, sem data de
término)
Uma igreja saudável avalia periodicamente sua própria saúde espiritual,
estabelece metas concretas de crescimento e lidera deliberadamente quatro
frentes: o crescimento interno (maturidade dos membros), o crescimento por
expansão (novos convertidos e novos grupos), o crescimento de "ponte"
(alcançando grupos culturais ou geográficos vizinhos) e o crescimento
organizacional (estruturas, finanças, governança).
Meta da estação: uma igreja local, saudável, em crescimento e já
reproduzindo novos discípulos e novos líderes.
6. Localizando — estabelecendo presença na comunidade (2 anos, de forma
contínua)
Chega o momento de decidir onde e como a igreja vai se estabelecer fisicamente:
multiplicar-se em casas ou células, ou buscar (alugar, construir ou comprar) um
espaço próprio. Essa decisão envolve levantar recursos, avaliar terrenos ou
imóveis, e — quando necessário — repetir esse processo de busca de local mais
de uma vez, à medida que a congregação cresce ou se multiplica em novas
frentes.
Meta da estação: instalações adequadas para sustentar os
ministérios que estão nascendo.
7. Multiplicando — estabelecendo um movimento de multiplicação de igrejas
(contínua)
A estação final não é o fim, mas a virada: a igreja que foi plantada agora se
torna plantadora. Isso pede uma visão e uma estratégia unificadas para a
multiplicação, um cultivo constante de renovação espiritual (sem isso, o
movimento esfria), superação corajosa das barreiras de liderança que
normalmente travam o crescimento, sistemas de recrutamento e avaliação de novos
plantadores, sistemas de treinamento e mentoria em escala, redes de apoio entre
plantadores e igrejas, e uma estratégia de captação de recursos que sustente o
movimento como um todo — não apenas uma igreja isolada.
Meta da estação: redes de plantação de igrejas e movimentos de
multiplicação genuinamente reprodutivos.
Um detalhe que a liderança não pode perder de vista
Observe que, em todas as sete estações, o quadro original lista as pessoas
envolvidas: o plantador, o mentor, a equipe de lançamento, presbíteros e
diáconos, aprendizes e estagiários, e — em todas as fases, sem exceção — intercessores.
Isso não é acidental. Plantação e multiplicação de igrejas nunca foi, e nunca
será, tarefa exclusiva do pastor, evangelista ou missionário. É projeto de
corpo inteiro. O leigo que ora com fidelidade, o casal que abre sua casa para
um pequeno grupo, o jovem que aceita ser discipulado com o objetivo de
discipular outros, o membro que contribui financeiramente para a plantação de
uma nova congregação — todos eles são, no sentido mais literal, agentes de
multiplicação da igreja de Cristo.
Conclusão
O quadro das sete estações não é uma fórmula mecânica capaz de garantir sucesso
— nenhuma metodologia substitui a soberania de Deus sobre o crescimento da sua
igreja, como o próprio Paulo reconheceu em 1 Coríntios 3. Mas é um instrumento
útil, testado em muitos contextos, para que uma congregação avalie
honestamente: em qual estação estamos? O que já amadureceu? O que ainda precisa
ser desenvolvido antes de avançarmos para a próxima fase?
A imagem por trás do quadro — semente, muda, árvore jovem, árvore que floresce,
árvore de raízes profundas, árvore que multiplica outras árvores frutíferas — é
uma imagem profundamente bíblica. Ela nos lembra que a igreja é um organismo
vivo, não uma organização estática; que o crescimento saudável é gradual, mas
também que uma árvore que nunca dá fruto nem se multiplica não está cumprindo o
propósito para o qual foi plantada.
A pergunta que fica para cada congregação, e para cada líder leigo dentro dela,
não é apenas "nossa igreja está crescendo?", mas "nossa igreja
está se multiplicando"? Estamos formando pessoas, recursos e visão
suficientes para que, um dia, uma nova igreja nasça a partir da nossa — e,
depois dela, outra, e outra?
Desafios
para a liderança
1. O risco de estacionar na fase de "Desenvolvimento".
Muitas igrejas nascem, reúnem uma comunidade e desenvolvem bons ministérios
internos — e param aí. A multiplicação de líderes e, mais adiante, de novas
igrejas, exige uma decisão intencional que nunca acontece
"sozinha".
2. A escassez de mentores e formadores de liderança. A estação de
"Mentoreando" costuma ser o gargalo mais comum. Sem um sistema
deliberado de formação de novos presbíteros, diáconos e plantadores, o
crescimento da igreja tem um teto.
3. A tentação do pragmatismo desligado da doutrina. Estratégia e
método são bons servos, mas maus senhores. Toda ferramenta de crescimento —
inclusive esta — precisa ser avaliada à luz da eclesiologia bíblica e da
confessionalidade da igreja, e não o contrário.
4. A dependência excessiva do pastor. Enquanto a multiplicação de
ministérios, o cuidado pastoral e o evangelismo dependerem de uma única pessoa,
a igreja não estará pronta para plantar outra. A estação de
"Multiplicação" só é alcançada por igrejas que já aprenderam a
distribuir liderança.
5. A sustentabilidade financeira e estrutural. Levantar recursos
para um novo templo, para o sustento de um novo plantador ou para uma rede de
plantação exige planejamento de longo prazo — e isso é, em grande parte,
responsabilidade da liderança leiga, não apenas do pastorado.
6. A perda da visão de geração em geração. Uma igreja pode ter
multiplicado uma vez e, depois, esquecer por que o fez. Manter viva, em cada
nova geração de membros, a convicção de que plantar igrejas é obediência direta
à Grande Comissão — e não apenas um projeto pontual do passado — é talvez o maior
desafio de todos.
A obra é grande, os obreiros são poucos, e o campo já está branco para a ceifa.
Que cada líder leigo, dentro de sua esfera de dons e responsabilidade, assuma
seu lugar nessa história — orando, servindo, discipulando e, quando chamado,
indo plantar.
Robson Rosa Santana[1]
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Referência conceitual: quadro "Sete Estações da Plantação e
Multiplicação de Igrejas" (Seven Seasons of Church Planting &
Multiplication), desenvolvido por Steven L. Childers e J. Allen Thompson,
Global Church Advancement. As sete estações foram reapresentadas e explicadas
neste artigo com linguagem própria, para fins de reflexão e formação de
liderança evangélica.
[1] Pastor da Igreja Presbiteriana do
Brasil desde 2003. Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano Brasil
Central (Goiânia, 2002), Mestre em Divindade (Magister Divinitatis) pelo
Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (São Paulo, 2016) e Licenciado
em Filosofia pela Universidade Paulista (UNIP, 2024). Atualmente pastoreando a
Igreja Presbiteriana Solar Park (Inhumas-GO).
