INTRODUÇÃO
O objetivo deste estudo é expor algumas das heresias presentes na Igreja Evangélica Brasileira, confrontando-as com o ensino bíblico. Digo "algumas" porque enumerar e analisar cada nuance das falsas doutrinas no nosso país seria uma tarefa quase impossível.
Quando falo de igreja aqui, refiro-me principalmente às igrejas neopentecostais, pois é nelas que esse tipo de ensino proliferou de forma mais evidente. Claro que não podemos ignorar que essas ideias têm entrado em igrejas pentecostais históricas e até em denominações tradicionais, como presbiterianas, batistas e metodistas. Nesses últimos casos, porém, costuma acontecer em focos isolados — seja por meio de pessoas pontuais que foram fisgadas por esses ensinos ou, no máximo, em partes de uma congregação.
Antes de falarmos sobre as heresias em si, vale fazer uma distinção prática entre seita e heresia. A palavra "seita" vem de uma raiz que indica "divisão", "partido" ou "corrente de pensamento". No sentido original do Novo Testamento, o termo grego (hairesis) nem sempre era pejorativo, servindo para designar um grupo ou facção (At 24.5-6). Em nossos dias, porém, passou a indicar um movimento ou instituição que segue um líder humano em torno de doutrinas deturpadas extraídas da Bíblia.
Já a heresia é a distorção explícita do ensino bíblico. Trata-se de uma exposição de uma ou mais doutrinas que não condizem com as Escrituras, apresentando uma abordagem sutil e distorcida do cristianismo.
Como mencionado, as heresias estão mais evidentes nas igrejas neopentecostais, em grande parte ligadas à Teologia da Prosperidade e ao movimento da Confissão Positiva. Citarei algumas dessas igrejas e seus líderes apenas para contextualizar a origem dessas ideias, sem a pretensão de julgá-los ou incriminá-los. Entre as denominações mais conhecidas estão a Igreja Internacional da Graça de Deus, Universal do Reino de Deus, Mundial do Poder de Deus, Ministério Palavra da Fé, Sara Nossa Terra, Fonte da Vida, Verbo da Vida, Verbo Vivo, Cristo Vive e Renascer em Cristo, representadas por figuras públicas como o Msn. R. R. Soares, Bispo Edir Macedo, Msn. Valnice Milhomens, Jorge Linhares, Jorge Tadeu, Cácio Colombo, Miguel Ângelo da Silva Ferreira, Estevam Hernandes, Valdemiro Santiago, entre outros.
1. ORAÇÃO E A SOBERANIA DE DEUS
Ao observar certos líderes em programas de rádio, televisão ou em seus livros, o tom usado para falar com Deus chama a atenção. Suas palavras revelam que a soberania de Deus é simplesmente ignorada. A postura de servo, com um coração contrito e humilde, dá lugar a uma atitude de exigência. Sob a alegação de fé, exige-se de Deus que responda às orações como uma apropriação. Os verbos mais usados são: exigir, decretar, reivindicar e determinar. Não se dá espaço para a expressão "seja feita a tua vontade".
A vontade de Deus deve ser feita de acordo com a vontade deles. A título de exemplo, certa feita um desses pastores disse que em sua igreja não tinha esse negócio de "se Deus quiser", pois lá Deus quer. E não tinha isso de "bater" (Lc 11.9), pois, se não abrisse, ele arrebentaria a porta!
O verbo pedir perdeu o seu significado bíblico. Isso representa um conceito muito diferente daquele ensinado nas Escrituras. "O verbo pedir em João 14.13,14 sugere a atitude suplicante, uma petição de alguém que está em posição menor a daquele a quem é feita a petição".[1] Vários textos mostram essa atitude de coração ao orarmos ao Pai (Mt 7.11; At 12.20; Ef 3.20; Cl 1.9; Tg 1.5-6 e 1 Jo 5.14-15). O próprio Jesus buscou fazer a vontade do Pai (Jo 4.34; 5.30; 6.38; 7.17). Os cristãos podem ser específicos em suas petições a Deus, derramando seus corações e compartilhando seus desejos, mas não devem esquecer que Ele é quem sabe o que é melhor para suas vidas.
2. CRENTES ENDEMONINHADOS
Fui testemunha desse ensino. Ao visitar uma determinada Comunidade Evangélica em Goiânia, fui surpreendido ao final do culto quando o missionário começou a orar pelas pessoas, e jovens obreiros que davam assistência ao culto foram até o altar e ficaram endemoninhados, precisando de orações para serem libertos .
Será que o crente fica endemoninhado? Quando analisamos a prática de algum as igrejas neopentecostais, vemos que a característica principal desses movimentos é a expulsão de demônios, pois para eles todos os males são causados por alguma atuação do maligno, seja no âmbito pessoal, social, da igreja ou dos crentes individualmente. O "bispo" Edir Macedo, no livro Orixás, Caboclos & Guias: deuses ou demônios?, começa o capítulo 15 dizendo: "Este capítulo não existiria se eu não tivesse visto constantemente pessoas de várias denominações evangélicas caírem endemoninhadas, como se fossem macumbeiras, ao receberem a oração da fé".[2] Como o próprio Macedo afirma, trata-se de fatos que presenciou, ou seja, fruto de experiência pessoal, em vez de fundamentação bíblica.
Na verdade, as Escrituras nos ensinam que o crente genuíno não pode ficar endemoninhado. Como destaca o Dr. Augustus Nicodemus Lopes, "a Escritura ensina que o crente está assentado com Cristo nos lugares celestiais, acima de todo principado e potestade (Ef 1.21-22). O crente está em Cristo, e Cristo nada tem a ver com o maligno (Jo 14.30). E, naturalmente , o diabo não toca os que são de Cristo (1 Jo 5.18), pois o que está no crente (o Espírito Santo) é maior que os espíritos malignos que habitam este mundo (1 Jo 4.4)".[3]
O crente genuíno não pode ser habitado ou possuído por demônios. O crente nominal sim, mas o regenerado e habitado pelo Espírito Santo, nunca![4]
3. CURAS E A OBRA DE CRISTO
O argumento principal desses movimentos é de que Deus cura sempre e a todos. Seus defensores afirmam "que Deus prometeu curar a todos os doentes, pois as doenças não são da vontade dEle para o seu povo, pois Deus é amor".[5] O texto-chave utilizado é Isaías 53.5: "...o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados". Por isso, sustentam que, se algum crente está doente, é por causa de pecado ou falta de fé.
O apologeta Paulo Romeiro argumenta contra essa visão: "Apesar de ter sido um profeta de Deus e de ter tido um ministério marcado por muitos feitos sobrenaturais, Eliseu morreu em consequência de uma enfermidade. Será que ele não tinha fé ou estava em pecado?".[6] Podemos citar outros homens de Deus que ficaram doentes e fazer a mesma pergunta, como Paulo (2 Co 12.7-10), Timóteo (1 Tm 5.23), Trófimo (2 Tm 4.20) e Epafrodito (Fp 2.30).
O texto de Isaías refere-se à restauração integral do ser humano — primeiramente a cura da alma mediante o perdão dos pecados, mas estendendo-se também à redenção do corpo. O Novo Testamento interpreta perfeitamente o Antigo: em Mateus 8.16-17, o foco está na cura de enfermidades físicas durante o ministério terreno de Jesus ("Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças"). Já o apóstolo Pedro aplica o mesmo trecho ao perdão e à libertação do pecado em 1 Pedro 2.24: "carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados... por suas chagas, fostes sarados".
Nesse sentido, a obra expiatória de Cristo nos garante a salvação plena. Contudo, assim como ainda lutamos contra a presença do pecado nesta vida, também estamos sujeitos às enfermidades da criação caída. A cura física definitiva e plena se manifestará na glorificação, quando nos encontrarmos com o Senhor em Sua segunda vinda.
4. MALDIÇÃO HEREDITÁRIA
A base bíblica usada pelos defensores dessa doutrina é principalmente Êxodo 20.5-6, onde Deus declara: "...visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem...". Na verdade, essa expressão "não indica a existência de uma maldição hereditária, mas que qualquer violação da lei de Deus numa geração, fatalmente irá afetar as gerações futuras".[7] As consequências da desobediência afetam gerações, mas os frutos da obediência não têm fim.
Analisando o texto de forma coerente com toda a Escritura, vemos que a ideia de uma "maldição hereditária" caindo sobre o cristão é irreal. O próprio Deus esclarece em Ezequiel: "Que tendes vós, vós que, acerca da terra de Israel, proferis este provérbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, jamais direis este provérbio em Israel... a alma que pecar, essa morrerá" (Ez 18.2-4).
Daí chegamos a conclusões límpidas: primeiro, cada pessoa presta contas de si mesma diante de Deus (Rm 14.12); segundo, em Cristo somos plenamente absolvidos (Rm 8.1); e, por fim, Cristo já se fez maldição por nós na cruz (Gl 3.13). Ninguém pode amaldiçoar aquele a quem Deus abençoou (Nm 23.8, 23).
5. PROSPERIDADE FINANCEIRA
O conceito de prosperidade financeira integra um sistema maior conhecido como Teologia da Prosperidade ou Confissão Positiva. Dentro dele, encontram-se ensinos como a diferenciação distorcida entre Logos e Rhema,[8] a promessa de saúde inabalável, a chamada "oração da fé"[9] e a busca obsessiva por bens materiais.[10]
Kenneth Hagin, um dos principais propagadores da Confissão Positiva, chegou a escrever: "Deus quer que seus filhos usem a melhor roupa. Ele quer que eles dirijam os melhores carros e quer que eles tenham o melhor de tudo… simplesmente exija o que você precisa" (New Thresholds of Faith, 1985, p. 55).
A distorção chega ao ponto de ensinar que o próprio Senhor Jesus foi um homem rico por possuir um tesoureiro, usar uma túnica sem costura e andar num jumentinho — veículo que, segundo eles, equivaleria a um carro de luxo da época.
Contudo, ao estudarmos as Escrituras, vemos o oposto. Jesus nasceu humildemente e declarou não ter onde reclinar a cabeça (Mt 8.20). No Antigo e no Novo Testamento, Deus demonstra constante preocupação com os pobres e nos alerta contra a ganância (Dt 15.11; Mc 14.7; 1 Co 11.22).
Um evangelho focado no acúmulo de posses desvia o cristão do essencial. Como declarou Joni Eareckson Tada: "A essência do Evangelho não é a saúde, nem a prosperidade, nem a felicidade, mas a submissão a Cristo".[11]
6. O MOVIMENTO G-12
Poderíamos tratar de várias heresias dentro do Movimento G-12 que afetam a doutrina de Deus (Teontologia) e da Igreja, mas muitas delas se alinham aos erros neopentecostais. Destaca-se, entre elas, o modelo de liderança que "defende o fim de colegiados, conselhos e assembleias, e propõe um sistema totalitário e personalista".[12]
O fundador do movimento, o colombiano César Castellanos, escreveu: "A época das assembleias e dos comitês de anciãos para dar passos importantes na Igreja, já passou na história. Estou convencido de que Deus dá visão ao pastor e nessa medida é a ele que o Espírito Santo fala, indicando-lhe até onde deve mover-se".[ 13]
Com essa visão, a autoridade e suficiência das Escrituras são deixadas de lado, contrariando o modelo bíblico de governo colegiado e presbiteral na igreja (Dt 1; At 15; 1 Tm 1.6-16).
CONCLUSÃO
É motivo de profunda tristeza observar o cenário atual da igreja evangélica no Brasil. Cristãos de outras nações frequentemente se impressionam com o crescimento numérico dos evangélicos em nosso país, chegando a falar em avivamento. No entanto, quando analisamos as distorções doutrinárias que acompanham esse crescimento, somos forçados a perguntar se vale a pena crescer a qualquer custo, especialmente em detrimento da sã doutrina.
Não se pode negar a expansão evangélica, mas ela tem sido acompanhada por heresias devastadoras, que agem como um câncer a corroer o corpo (2 Tm 2.17). Muitos se empolgam com estatísticas e com o fervor de movimentos neopentecostais, que são os que mais crescem.
A advertência solene de Paulo a Timóteo aplica-se perfeitamente aos nossos dias: "Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entr egando-se às fábul as" (2 Tm 4.3-4).
Esse tempo chegou. O termo "doutrina" passou a ter um sentido pejorativo para muitos, associado à frieza espiritual. Entretanto, grande parte do evangelho anunciado hoje tem sua motivação no ego humano e em "suas próprias cobiças". O resultado é um ensino fundamentado em fábulas.
Diante disso, a exortação paulina permanece urgente para nós: "prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina" (2 Tm 4.2).
NOTAS DE REFERÊNCIA
[1] Paulo César Nunes, "O Neopentecostalismo", in Currículo Aventura Cristã: Seitas e Heresias, (São Paulo: Cultura Cristã, 1988), p. 21.
[2] Bispo Macedo, Orixás, Caboclos & Guias: deuses ou demônios?, 13ª ed., (Rio de Janeiro: Universal, 1996), p. 115.
[3] Augustus Nicodemus Lopes, O Que Você Precisa Saber Sobre Batalha Espiritual, 2ª ed., (São Paulo: Cultura Cristã, 1998), p. 89.
[4] Paulo César Nunes, "O Neopentecostalismo", p. 22.
[5] Citado por Gildásio Jesus B. dos Santos, "O Evangelho da Prosperidade", in Revista Educação Cristã: Entendendo as Religiões Hoje, 3ª ed., (Santa Bárbara D’Oeste: SOCEP, 2000), p. 12.
[6] Paulo Romeiro, Supercrentes: o Evangelho segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomes e os profetas da prosperidade, 7ª ed., (São Paulo: Mundo Cristão, 1998), p. 31. Quanto à morte de Eliseu, ver 2 Rs 13.14-20.
[7] Arival Dias Casimiro, "Bênção e Maldição", in Revista Educação Cristã: Entendendo as Religiões Hoje, p. 23.
[8] Pedro usa as duas palavras como sinônimos em 1 Pe 1.23-25.
[9] Em detrimento da soberania de Deus, como vimos antes.
[10] Para análise de todas essas heresias, ver o capítulo 3 do livro Supercrentes, de Paulo Romeiro, citado anteriormente .
[11] Revista Raio de Luz, Ano 21, nº 82 (jul., ago., set.), 1991, p. 15.
[12] Jôer Corrêa Batista, "Movimento G-12: Uma Nova Reforma ou Velha Heresia?", Fides Reformata, V. 5, Nº 1 (Janeiro-Junho 2000), p. 38.
[13] César Castellanos Domínguez, Sonhas e Ganharás o Mundo, (São Paulo: Palavra da Fé, 1999), p. 146.
Robson Rosa Santana
Pastor Presbiteriano
* Atualizado em 13/10/2026