17 de maio de 2018

O Universo ao Lado | James W. Sire: uma resenha


SIRE, James W. O Universo ao Lado: um catálogo básico sobre cosmovisão. Trad. Fernando Cristófalo. 4 ed. São Paulo: Hagnos, 2009. Original em inglês: The Universe next Door (2004).

O livro Universo ao Lado teve sua primeira edição em 1976, o que dista da sua última edição em inglês vinte e oito anos. E como algumas cosmovisões estavam ainda tomando forma, como o Movimento da Nova Era e Pós-modernismo, Sire faz alguns atualizações baseadas no conhecimento mais profundo que o intervalo entre a primeira e quarta edição em inglês produziu. Fundamenta as cosmovisões citando vasta pesquisa bibliográfica.
O que Sire faz nesse livro é mostrar as cosmovisões mais importantes que ainda estão em atuação no mundo, com o propósito de os leitores tomarem uma decisão pela cosmovisão que tenha mais coerência e não se contradiga. Nesse caso, como cristão, apresenta a cosmovisão do teísmo cristão como a mais convincente.
São oito as cosmovisões básicas examinadas: (1) teísmo cristão, (2) deísmo, (3) naturalismo, (4) niilismo, (5) existencialismo, (6) monismo panteísta oriental, (7) nova era e (8) pós-modernismo. Se o niilismo que é a negação de qualquer cosmovisão não for contada, são sete. São nove se o existencialismo for contado como duas, uma vez que é divido em ateísta e teísta. Ou até mesmo dez, contando com a breve explanação do animismo.
Na introdução, Sire diz que aperfeiçoou seu conceito de cosmovisão: “Uma cosmovisão é um comprometimento, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expressa como uma história ou um conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser total ou parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas), que detemos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistente) sobre a constituição básica da realidade e que fornece o alicerce sobre o qual vivemos, movemos e possuímos nosso ser” (p.16).
Para ele são sete as questões básicas da maioria das cosmovisões, pelas quais ele tenta definir as cosmovisões analisadas. As questões básicas são as seguintes: (1) O que é a realidade primordial, qual seja, o que é realmente verdadeiro? (2) Qual a natureza da realidade externa, isto é, o mundo que nos rodeia? (3) O que o ser humano é? (4) O que acontece quando uma pessoa morre? (5) Por que é possível conhecer alguma coisa? (6) Como sabemos o que é certo e errado? (7) Qual é o significado da história humana? No entanto, nem todas as cosmovisões respondem a todas as perguntas.
O capítulo 2 aborda as questões do Teísmo Cristão, onde ele as responde da seguinte forma: “(1) Deus é infinito e pessoal (trino), transcendente e imanente, onisciente, soberano e bom. (2) Deus criou o cosmos ex-nihilo para operar com uma uniformidade de causa e efeito e um sistema aberto. (3) Os seres humanos são criados à imagem de Deus e, portanto, possuem personalidade, auto-transcendência, inteligência, moralidade, senso gregário e criatividade. (4) Os seres humanos podem conhecer tanto o mundo que os cerca quanto o próprio Deus, porque ele colocou neles essa capacidade e porque ele desempenha um papel ativo na comunicação com eles. (5) Os seres humanos foram criados bons, porém, devido à queda a imagem de Deus tornou-se desfigurada, embora não tão destruída de modo a não ser mais passível de restauração; através da obra de Cristo, Deus redimiu a humanidade e começou o processo de restaurar as pessoas à bondade, muito embora qualquer pessoa possa escolher rejeitar essa redenção. (6) Para cada ser humano a morte representa tanto o portão para a vida com Deus e seu povo quanto para a separação eterna da única coisa que poder satisfazer as aspirações humanas definitivamente. (7) A ética é transcendente e alicerçada no caráter de Deus como bom e (santo e amoroso).”
No capítulo 3, acerca do Deísmo, conclui com as respostas: “(1) Um Deus transcendente, como primeira causa, criou o universo, mas, então, o deixou funcionar por conta própria. Deus é, portanto, não imanente, não totalmente pessoal, não soberano sobre os assuntos humanos e não providencial. (2) O cosmo criado por Deus é determinado, pois foi criado como uma uniformidade de causa e efeito em um sistema fechado; nenhum milagre é possível. (3) Os seres humanos, embora pessoais, fazem parte do mecanismo do universo. (4) O cosmo, este mundo, é compreendido como estando em seu estado normal; ele não é decaído ou anormal. Podemos conhecer o universo e por meio de seu estudo determinar como Deus é. (5) A ética é restrita à revelação geral; pelo fato de o universo ser normal, ele revela o que é certo. (6) A história é linear, pois o curso do cosmo foi determinado na criação”.
O capítulo 4 trata da cosmovisão do Naturalismo, e tem como respostas às questões básicas: (1) A matéria existe eternamente e é tudo o que há. Deus não existe. (2) O cosmo existe com uma uniformidade de causa e efeito em um sistema fechado. (3) Os seres humanos são “máquinas” complexas; a personalidade é uma interrelação de propriedades químicas e físicas ainda não totalmente compreendidas. (4) A morte é a extinção da realidade e da individualidade. (7) A história é uma corrente linear de eventos ligada por causa e efeito, porém, sem uma proposta abrangente. Tem como teóricos maiores Darwin e Marx. O naturalismo na prática desembocou no (1) Humanismo secular; e (2) Marxismo.
Quando trata do Niilismo no capítulo 5, as respostas àquelas questões básicas não existem. Pois é mais um sentimento do que uma filosofia. Na verdade, nega qualquer verdade filosófica, qualquer tipo de conhecimento e valor de todas as coisas. “Nega até mesmo a realidade de sua própria existência” (p.109). Em suma, nega a realidade de tudo. Essa negação de todas as coisas leva, inexoravelmente, à perda de significado. E como se vive sem significado para nada, até mesmo para si? Sem sentido algum para a existência. O que Sire faz é mostrar as incoerências dentre do niilismo teórico, bem como na incoerência dentro da sua epistemologia prática, apresentando, assim, tensões dentro desse “sentimento” de nada ser, nem existir.
No capítulo 6 aborda a cosmovisão existencialista como uma filosofia que transcende o niilismo. Tem duas formas básicas: ateísta e deísta.  Sendo que a primeira é uma parasita do naturalismo e a segunda, do teísmo. As respostas às questões básicas do existencialismo ateísta são: “(1) O universo é composto apenas de matéria, porém para o ser humano a realidade se apresenta em duas formas – subjetiva e objetiva. (2) Para os seres humanos a existência precede a essência; as pessoas fazem de si mesmas o que são. (3) Cada pessoa é totalmente livre com respeito à sua natureza e ao destino. (4) O altamente elaborado e firmemente organizado mundo objetivo se coloca contra os seres humanos e parece absurdo. (5) No pleno reconhecimento e contra o absurdo do mundo objetivo, a pessoa autêntica deve revoltar-se e criar valores.”. Quanto ao existencialismo teista: “(1) Deus é infinito e pessoal (trino), transcendente e imanente, onisciente, soberano e bom. (2) O pessoal é que possui valor. (3) Os seres humanos são seres pessoais que, quando chegam à plena consciência, descobrem-se em um universo hostil; Se Deus existe ou não é uma questão difícil a ser resolvida, não pela razão, mas por meio da fé. (4) O conhecimento é subjetividade; a verdade total é com freqüência, paradoxal. (5) A história como registro de eventos é incerta, sem importância, mas a história como modelo, tipo ou mito a ser feito presente e vivenciado é de suma importância”. Há 2 passos além do teísmo tradicional: 1) desconfia da precisão histórica e 2)  perde o interesse em sua facticidade e enfatiza a sua implicação ou significado religioso].
O Monismo Panteísta Oriental é analisado no capítulo 7. Assim como o Movimento da Nova Era, não possui uma base doutrinária básica ou unificada, isto é, há algumas vertentes dentro da própria cosmovisão. Principais questões são respondidas da seguinte forma: “(1) Atma é Brahma, isto é, a alma de cada um e de todo o ser humano é a alma do cosmo. (“Deus” é a realidade única, infinita, impessoal e suprema, p.183). (2) algumas coisas são mais únicas que outras. (3) Muitos (se não todos) caminhos levam ao um. (Daí surge a idéia: “todos as religiões levam ao mesmo fim. Ao Um com a divindade. (4) perceber a unidade com o cosmo é ir além da personalidade. (Já que a realidade última – Atma – é impessoal. No final das contas o ser humano é em essência impessoal. (5) Perceber a unidade de alguém é ir além do conhecimento. O principio da não contradição não se aplica onde a suprema realidade está relacionada. (em outras palavras o ser é incognoscível e a verdade não existe). (6) Perceber a unidade com o cosmo é ir além do bem e do mal; o cosmo é perfeito a todo o momento. (7) A morte é o fim da existência pessoal, individual,mas não altera em nada de essencial na natureza do indivíduo (há imortalidade, mas não pessoal e individual). 8. Perceber a unidade com o um é ir além do tempo. O tempo é irreal. A história é cíclica.” Perceber a própria divindade é transcender a história. A seguir faz uma distinção entre o hinduísmo não dualista e o zen budismo. Por fim, Sire advoga que há um problema de comunicação com o Ocidente por ser as cosmovisões totalmente divergentes, embora muitos ocidentais estejam bebendo sedentos da cosmovisão oriental panteísta.
 O capítulo 8 aborda a cosmovisão do Movimento da Nova Era. Até aqui as cosmovisões têm suas origens no Ocidente, ao passo que a Nova Era é um “estrangeirismo” do oriente. Isso exige uma mudança grande no modo de pensar ocidental. Muitas das respostas apresentadas são difíceis de compreender pela tradição filosófica do Oeste. Ainda é um cosmovisão em desenvolvimento sem conceito unificado. Vejamos as respostas condensadas de Sire: (1) Qualquer que seja a natureza do ser (idéia ou matéria, energia ou partícula), o eu é o centro, a realidade fundamental. Como os seres humanos crescem em sua consciência e compreensão desse fato, a raça humana está no limiar de uma transformação radical na natureza humana; mesmo agora vemos alguns precursores da humanidade transformada e protótipos da Nova Era. (2) O Cosmo, embora unificado no eu, é manifesto em duas dimensões mais: o universo visível, que é acessível por meio da consciência comum, e o universo invisível (ou mente expandida), acessível por estados alterados de consciência. (3) A essência da experiência da Nova Era é a consciência cósmica, na qual categorias comuns de espaço, tempo e moralidade tendem a desaparecer. (4) A morte física não é o fim do eu; sob a experiência da consciência cósmica, o temor da morte é removido. (5) Três atitudes são consideradas para a questão metafísica da realidade sob o quadro geral da Nova Era: (1) a versão oculta, na qual os seres e coisas percebidos em estados alterados de consciência existem à parte do ser que é consciente, (2) a versão psicodélica, na qual essas coisas e seres são projetos do eu consciente e (3) a versão relativista conceitual, na qual a consciência cósmica é a atividade consciente de uma mente, utilizando um dos muitos modelos incomuns para a realidade, nenhum dos quais é “mais verdadeiro” do que qualquer outro”.
Por fim, é abordada a cosmovisão do Pós-modernismo. Respostas às questões básicas: “(1) A primeira questão que o pós-modernismo suscita não é o que está lá ou como sabemos o que está lá, mas como a linguagem funciona para construir significado. Em outras palavras, há uma mudança nas ‘primeiras coisas’ de ser para saber, para construir significado. (2) A verdade sobre a própria realidade está para sempre oculta de nós. Tudo o que podemos fazer é contar histórias. (3) As histórias propiciam às comunidades o seu caráter de coesão. (4) Todas as narrativas mascaram um jogo pelo poder. Qualquer narrativa utilizada como metanarrativa torna-se opressiva. (5) Não há substancial. Os seres humanos fazem de si mesmos o que são pelas linguagens construídas sobre eles mesmos. (6) A ética, como o conhecimento, é uma construção lingüística. O bem social é tudo que a sociedade assume ser.  (7) O pós-modernismo é instável.”
Não posso analisar com maior propriedade as cosmovisões abordadas, com exceção do Teísmo cristão. Nessa cosmovisão, Sire diz que não entraria na questão das divergências internas, como predestinação versus livre arbítrio (p.45), no entanto, deixa claro sua posição arminiana (p.43), e parece crer num universo aberto, lembrando o teísmo aberto (p.32-35).


Pr. Robson Rosa Santana
Igreja Presbiteriana do Brasil

25 de abril de 2018

10 verdades a serem lembradas sobre o evangelho, a igreja e a missão | Ronaldo Lidório

1. O evangelho de Deus é supracultural e transtemporal. Suficiente para comunicar a verdade de Deus a todo homem, em todas as culturas, em todos os tempos e em todas as organizações sociais, seja uma aldeia remota ou uma megacidade (Mt 24.14; Jo 3.16; At 1.8).

2. O evangelho não é apenas a verdade, mas também o poder de Deus. A mensagem bíblica é profundamente confrontadora e transformadora, atingindo e transformando o homem em todos os níveis de sua existência, inclusive o cultural (Rm 1.20; At 17.18-32; At 8. 12-23; Gl 1.16).

3. O evangelho começa em Deus e fala sobre a sua salvação. O evangelho não é a mensagem da igreja sobre Deus, mas de Deus sobre a salvação da igreja. A mensagem do evangelho não é a igreja e seus feitos, mas Jesus Cristo, sua morte e ressurreição (Rm 1.1-2, 16 e 15.16; Ef 2.14-22).

4. O pecado nos separa de Deus. O homem, em pecado, está distanciado de Deus e totalmente carente de sua graça e salvação. O evangelho convida o homem a compreender que está perdido e arrepender-se dos seus pecados (Gn 2.17; Is 59.2; Rm 1).

5. A igreja é a comunidade dos redimidos, originada em Deus e pertencente a Deus. Não foi formada para agradar aos desejos e preferências de homens, mas para agradar e obedecer a Deus (1Co 1.1-2; Ef 4.11).

6. A igreja não é uma comunidade alienante. Aqueles que foram redimidos por Cristo continuam sendo homens e mulheres, pais e filhos, fazendeiros e comerciantes que respiram e levam o evangelho onde estão (1 Co 6.12-20).

7. A igreja é uma comunidade sem fronteiras, portanto fatalmente missionária. É chamada a proclamar Jesus perto e longe, em todos os lugares e prioritariamente entre os que pouco ou nada ouviram do evangelho (Mt 28.18-20; Rm 15.20).

8. A vida da igreja, quando obediente às Escrituras, é um grande testemunho para o mundo perdido. É necessário, portanto, que viva aquilo que prega, que demonstre no dia-a-dia aquilo que confessa nos cultos públicos (Jo 14.26; 16.13-15).

9. A primeira missão da Igreja não é proclamar, mas morrer. Somente morrendo para nossos pecados e desejos viveremos para Cristo e seu Reino (Gl 2.20; 1Pe 2.9). 

10. A missão maior da igreja é glorificar a Deus. Nessa caminhada é preciso que a igreja se desglorifique para de fato glorificar ao Senhor (Sl 108.5; Fp 1.11; Rm 16. 25-27).

Ronaldo Lidório

Extraído do Facebook: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1417769851578399&id=451921854829875

15 de janeiro de 2018

Evangelização: como criar uma cultura de evangelização na igreja local | Estudos adaptados de J. Mack Stiles



EVANGELIZAÇÃO É MAIS QUE UM PROGRAMA*
Passam-se alguns anos e as igrejas continuam se lançando à mais recente moda evangelística. Os líderes administram o novo programa, e os membros põem a mão na massa. Mas imagine uma igreja em que a evangelização simplesmente faça parte da cultura da igreja. Os líderes estão sempre compartilhando a fé e o fazem abertamente. Os membros os seguem, incentivando uns aos outros a tornar a evangelização uma forma da vida.
Esse é o conceito de evangelização apresentado neste livro pequeno, mas impactante. A questão aqui não é oferecer programas. Antes, ele apenas deseja propor à sua igreja uma nova maneira de viver e compartilhar o evangelho.
* Sinopse do site da Edições Vida Nova. Para adquirir o livro no site, clique aqui.

Estudos:
1. O que é evangelização?
2. Uma cultura de evangelização - parte 1
3. Uma cultura de evangelização - parte 2
4. Uma cultura de evangelização - parte  3
5.  Conectando a Igreja a uma cultura de evangelização
6.  Evangelistas intencionais numa cultura de evangelização - parte 1
7. Evangelistas intencionais numa cultura de evangelização - parte  2
8. Conectando a fé na prática - parte 1
9. Conectando a fé na prática - parte 2

Para baixar a apostila clique aqui

9 de novembro de 2017

O Lado Sombrio do Halloween - o que os cristãos devem pensar? | Albert Mohler


Há mais de cem anos, o grande teólogo holandês Hermann Bavinck previu que o século 20 "testemunharia um gigantesco conflito de espíritos". Sua previsão revelou-se um eufemismo, e este grande conflito continua no século 21.

A questão do Halloween se pressiona anualmente sobre a consciência cristã. Consciente dos perigos novos e antigos, muitos pais cristãos optam por retirar completamente seus filhos do feriado. Outros escolhem seguir um plano de batalha estratégico para o engajamento com o feriado. Ainda outros avançaram, buscando converter o Dia das Bruxas em uma oportunidade evangelística. O Halloween realmente é significativo?

Bem, o Dia das Bruxas é um grande negócio no mercado. Halloween é superado apenas pelo Natal em termos de atividade econômica. De acordo com David J. Skal, "números precisos são difíceis de determinar, mas o impacto econômico anual do Dia das Bruxas agora está em algum lugar entre 4 bilhões e 6 bilhões de dólares, dependendo do número e tipos de indústrias que se inclui nos cálculos".

Além disso, o historiador Nicholas Rogers afirma que "Halloween é atualmente a segunda noite de festa mais importante na América do Norte. Em termos de seu potencial de varejo, segue em segundo após apenas do Natal. Este comercialismo fortalece seu significado como um tempo de licença pública, uma oportunidade personalizada de ter uma explosão. Independentemente de suas complicações espirituais, Halloween é um grande negócio ".

Rogers e Skal produziram livros concordando sobre a origem e significado do Halloween. Nicholas Rogers é o autor de Halloween: From Pagan Ritual to Party Night [Dia das Bruxas: do Ritual pagão para a Festa Noturna – tradução livre]. Professor de História na Universidade York no Canadá, Rogers descreveu uma celebração do Dia das Bruxas como um feriado transgressivo que permite que o estranho e os elementos do lado negro entrem no mainstream. Skal, um especialista na cultura de Hollywood, escreveu Death Make it Holiday: A History Cultural of Halloween [A Morte fez um Feriado: uma História Cultural do Dia das Bruxas – tradução livre]. A abordagem de Skal é mais desapaixonada e focada no entretenimento, considerando o impacto cultural do Halloween na ascensão de filmes de terror e o fascínio da nação com a violência.

As raízes pagãs do Halloween estão bem documentadas. O feriado está enraizado no festival celta de Samhain, que começava no final do verão. Como Rogers explica: "emparelhado com a festa de Beltane, que celebrava os poderes geradores de vida do sol, Samhain acenava para o inverno e as noites escuras à frente". Os estudiosos discutem se Samhain foi celebrado como um festival dos mortos, mas as raízes pagãs do festival são incontestáveis. As questões de sacrifícios humanos e de animais e várias práticas sexuais ocultistas continuam como questões de debate, mas a realidade da celebração como um festival oculto focado na mudança das estações sem dúvida envolvia práticas que apontam para o inverno como estação da morte.

Como Rogers comenta: "na verdade, as origens pagãs do Dia das Bruxas geralmente não estão nessas evidências de sacrifício, mas em um conjunto diferente de práticas simbólicas. Estas giram em torno da noção de Samhain como um festival dos mortos e como um tempo de intensidade sobrenatural que anuncia o início do inverno.

Como os cristãos devem responder a esse passado pagão? Harold L. Myra do Christianity Today argumenta que essas raízes pagãs eram bem conhecidas pelos cristãos do passado. "Mais de mil anos atrás, os cristãos confrontaram ritos pagãos de apaziguamento do senhor da morte e espíritos malignos. Os começos desagradáveis ​​do Halloween precederam o nascimento de Cristo quando os druidas, onde agora é Grã-Bretanha e França, observaram o fim do verão com sacrifícios aos deuses. Era o início do ano celta e eles acreditaram que Samhain, o senhor da morte, enviava espíritos malignos ao exterior para atacar os humanos, que poderiam escapar apenas assumindo disfarces e aparências dos próprios espíritos malignos ".

Assim, o costume de usar figurinos, especialmente fantasias imitando espíritos malignos, está enraizado na cultura pagã celta. Como Myra resume, "a maioria das nossas práticas de Halloween pode ser rastreada até os velhos ritos pagãos e superstições".

As complicações do Halloween vão muito além de suas raízes pagãs, no entanto. Na cultura moderna, Halloween tornou-se não apenas um feriado comercial, mas uma temporada de fascínio cultural com o mal e o demoníaco. Mesmo que a sociedade tenha pressionado os limites em questões como a sexualidade, o confronto da cultura com o "lado sombrio" também empurrou muito além das fronteiras de homenagens ao passado.

Como David J. Skal deixa claro, o conceito moderno de Halloween é inseparável da representação do feriado apresentado por Hollywood. Como Skal comenta: "A máquina do Dia das Bruxas transforma o mundo de cabeça para baixo. A identidade de alguém pode ser descartada impunemente. Os homens se vestem como mulheres e vice-versa. A autoridade pode ser zombada e contornada, e, o mais importante, os túmulos abertos e o retorno dos que partiram.

Este é o tipo de material que mantém Hollywood no negócio. "Poucos feriados têm um potencial cinematográfico que é igual a Halloween", comenta Skal. "Visualmente, o assunto é incomparável, se apenas considerado em termos de design de vestuário e direção artística. Dramaticamente, as antigas raízes do Dia das Bruxas evocam temas sombrios e melodramáticos, maduros para serem transformados em linguagem de filme de sombra e luz".

Mas "It's the Great Pumpkin, Charlie Brown"[1] da TV (“É a Grande Abóbora, Charlie Brown - que estreou em 1966) deu lugar à série "Halloween" de Hollywood e ao surgimento de filmes de “terror” violentos. Bela Lugosi e Boris Karloff foram substituídos por Michael Myers e Freddy Kruger.

Esse fascínio com o oculto ocorre quando os Estados Unidos estão passando pelo secularismo pós-cristão. Enquanto os tribunais removem todas as referências teísticas da praça pública dos Estados Unidos, o vazio está sendo preenchido com um fascínio generalizado com o mal, o paganismo e novas formas de ocultismo.

Além de tudo isso, o Halloween tornou-se absolutamente perigoso em muitos bairros. Sustos sobre lâminas escondidas em maçãs e doce envenenado se espalharam por toda a nação em ciclos recorrentes. Para a maioria dos pais, o maior medo é o encontro com símbolos ocultos e o fascínio da sociedade pela escuridão moral.

Por esse motivo, muitas famílias se retiram completamente do feriado. Suas crianças não vão pedir doces ou fazer travessuras, eles não usam trajes e não participam de festas relacionadas ao feriado. Algumas igrejas organizaram festivais alternativos, capitalizando a oportunidade de férias, mas afastando o evento das raízes pagãs e o fascínio por espíritos malignos. Para outros, o feriado não apresenta nenhum desafio especial.

Esses cristãos argumentam que as raízes pagãs do Dia das Bruxas não são mais significativas do que as origens pagãs do Natal e outras festas da igreja. Sem dúvida, a igreja cristianizou progressivamente o calendário, aproveitando feriados seculares e pagãos como oportunidades de testemunho e celebração cristã. Anderson M. Rearick III argumenta que os cristãos não devem entregar o feriado. Como ele relata: "Estou relutante em desistir do que foi um dos destaques do meu calendário de infância para o Grande Impostor e Chefe da Mentira sem motivo, exceto que alguns de seus servos o reivindicam como seu".

No entanto, a questão é um pouco mais complicada do que isso. Ao afirmar que a fantasia e a imaginação são parte integrante do dom da imaginação de Deus, os cristãos ainda devem estar muito preocupados com o foco dessa imaginação e criatividade. Argumentar contra o Dia das Bruxas não é equivalente a argumentar contra o Natal. O antigo festival da igreja de "All Hallow's Eve" [Noite de Todos os Santos] não é, de modo algum, universalmente compreendido entre os cristãos como a celebração da encarnação no Natal.

Os pais cristãos devem tomar decisões cuidadosas com base em uma consciência cristã biblicamente informada. Algumas práticas do Dia das Bruxas estão claramente fora de limites, outras podem ser estrategicamente transformadas, mas isso leva muito trabalho e pode encontrar um sucesso misto.

A chegada do Dia das Bruxas é um bom momento para os cristãos se lembrarem de que os espíritos malignos são reais e que o Diabo aproveitará todas as oportunidades para trompear sua própria celebridade. Talvez a melhor resposta ao Diabo no Halloween seja oferecida por Martinho Lutero, o grande Reformador: "A melhor maneira de expulsar o diabo, se ele não ceder aos textos das Escrituras, é zombar e persegui-lo porque ele não pode suportar desprezo."

No dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero iniciou a Reforma com uma declaração de que a igreja deve ser lembrada da autoridade da Palavra de Deus e a pureza da doutrina bíblica. Com isso em mente, a melhor resposta cristã ao Halloween pode ser desprezar o Diabo e depois orar pela Reforma da igreja de Cristo na Terra. Vamos colocar o lado sombrio na defensiva.

Albert Mohler



[1]It's the Great Pumpkin, Charlie Brown (no Brasil: Charlie Brown e a Grande Abóbora [Maga-SP] ou É a Grande Abóbora, Charlie Brown [VTI-Rio]) é um especial de TV dos Peanuts, lançado em outubro de 1966 após os sucesso dos especiais A Charlie Brown Christmas e Charlie Brown's All-Stars.[1] No Brasil foi exibido pelo SBT (nos anos 80) e pela Rede Record (em 2007/2008), além de também ter sido lançado em VHS e DVD.” (Wikipédia). Nota do tradutor.


Título original: Halloween and the Dark Side — What Should Christians Think?
URL do original: http://www.albertmohler.com/2014/10/31/halloween-and-the-dark-side-what-should-christians-think/
Acesso: 31/10/2017
Tradução: Pr. Robson Santana (Igreja Presbiteriana do Brasil)
Revisão: Pr. Walter Leite (Igreja Batista Betel – Aracaju – SE)
http://www.albertmohler.com/2014/10/31/halloween-and-the-dark-side-what-should-christians-think/

5 de outubro de 2017

Martinho Lutero e a Reforma Protestante

    Martinho Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483 em Eisleben (Alemanha). Passou sua infância em Mansfeld, onde seu pai trabalhava como mineiro. Depois de estudar o primário em Mansfeld, fez colégio em Magdeburgo e depois foi para a escola superior em São Jorge, em Eisnach. Por ser um estudante pobre, Lutero teve de trabalhar para ganhar o seu sustento, fazendo parte do coro da igreja e até mendigando o pão. Porém, esta situação mudou quando seu pai melhorou de condição financeira e enviou-o a Erfurt para estudar leis. “Na Faculdade de filosofia e como preparação para as leis, estudou lógica, dialética e retórica, assim como física e astronomia”.[1] Em 1502 era bacharel e três anos depois mestre (licenciado). Seu pai ficou tão entusiasmado com seu êxito que deu o custoso Corpus Iuris Civilis pensando que Lutero se empenharia nos estudos de Direito. No entanto, subitamente, ele decidiu tornar-se monge e entrar para um mosteiro, apartando-se, assim, do mundo.
    Quase nada se sabe das causas dessa repentina mudança. Alguns biógrafos dizem que foi fruto de um voto feito durante uma tempestade, mas também por causa do temor das crenças católicas. Na sua concepção o monacato seria o meio mais seguro de se obter a salvação e escapar do inferno[2]. Assim, a tempestade contribuiu para que ele tomasse essa decisão.
    Lutero entrou na ordem mendicante eremita de Santo Agostinho, motivado pela vida piedosa e sábia de João Stauptiz, que então dirigia a Alemanha. Staupitz induziu Lutero a estudar Teologia, e em 1507 foi ordenado sacerdote. Dois anos depois de entrar na ordem, Staupitz enviou Lutero para ensinar em Wittenberg, e logo depois, por assuntos da ordem, enviou-o a Roma.
    A viagem de Lutero a Roma, em 1510, foi um marco importante em sua vida. A ilusão que tinha a respeito de Roma caiu por terra quando ele constatou a imoralidade e a falta de santidade da capital do papado. Ao regressar, foi nomeado prior do convento de Wittenberg e depois de doutorar-se em Teologia em 1512 iniciou sua docência naquela universidade.
    Todavia, a crise espiritual iniciada com a sua entrada no mosteiro não tinha sido resolvida. Nada do que tinha visto e estudado tinha lhe dado paz. Apesar de buscar a reconciliação com Deus, cada vez mais se sentia separado d’Ele por causa de seus pecados. Ele estava em desespero por causa dessa situação. Depois chegou a escrever: “Manter-se em pé com as próprias forças é o erro no qual eu também estive”. No entanto, seria as Escrituras que trariam a paz de espírito que tanto buscava.
    Nos próximos anos anteriores à Reforma, entre 1513 e 1516, os ensinos e pensamentos de Lutero podiam resumir-se do seguinte modo: “o homem obtém o perdão graças a livre graça de Deus. Quando o homem tem a fé nas promessas de perdão, converte-se em um novo ser; a confiança no perdão é o começo de nova vida de santificação”.[3] Nesse novo entendimento acerca do Evangelho, Lutero começou a separar-se rapidamente da teologia escolástica, e de seu fundamento, a filosofia aristotélica.
     Durante o estudo e exposição da epístola aos Romanos, Lutero chega ao ápice de sua conversão: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm. 3:28). Com essa compreensão, ele se agarra na infinita graça de Deus, trazendo-lhe, assim, confiança e paz.
    A questão das indulgências acelerou ainda mais as divergências de Lutero e a Igreja Católica. O papa Leão X comissionou o arcebispo Alberto de Brandeburgo para pregar as indulgências na Alemanha, com a finalidade de arrecadar dinheiro para as obras da basílica de São Pedro. Como Alberto devia aos banqueiros Függer, encarregou o dominicano Tetzel para tal incumbência. Lutero já tinha se manifestado contra a doutrina das indulgências, e nesta ocasião conseguiu que o Eleitor Frederico negasse permissão a Tetzel de entrar em seus territórios. Porém, muitos súditos compraram as cartas papais. Lutero estava convencido de que o povo estava sendo enganado ao confiar em algo tão alheio à graça de Deus como as indulgências. Por isso negou publicamente a eficácia das indulgências.
    Assim, em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero coloca na porta da capela do castelo de Wittenberg as 95 teses, um documento contra as indulgências. Mas, em nenhuma delas, ele ataca o papa diretamente. “Pelo contrário, a Tese 9 diz: ‘O Espírito Santo nos beneficia através do papa’”[4]. "Estas teses, escritas em latim, não tinham o propósito de criar uma comoção religiosa, como tinha sido o caso das anteriores. Depois daquela experiência, Lutero parece ter pensado que a questão que tinha sido debatida era principalmente do interesse dos teólogos, e que, portanto, suas novas teses não teriam mais impacto que aquele produzido nos círculos acadêmicos".[5] Porém, estas teses tinham material suficiente para encolerizar a Tetzel e o arcebispo Alberto da Mongúcia.
    Num piscar de olhos as teses de Lutero se difundiram por toda a Alemanha, e apesar de se publicarem refutações, estas só serviram para realçar o conteúdo bíblico e teológico das teses. Quando Leão X tomou conhecimento não deu muita importância, pensando que seria algo regional envolvendo dominicanos e agostinianos. No entanto, Prieras, conselheiro do Papa, conseguiu dele uma ordem para que Lutero se apresentasse em Roma dentro de dois meses. Lutero, por sua vez, através de Spalatino, fez saber a Frederico e ao imperador, que isto era um ataque aos direitos das universidades alemãs. O imperador Maximiliano percebeu nesta disputa algo mais que uma discussão teológica e pediu prudência à Santa Sé, conseguindo do papa a revogação da convocação. O assunto passa às mãos de Cajetano, que exige de Lutero uma retratação total. Mas sua falta de sabedoria endureceu ainda mais as posturas.
    Leão X enviou um legado mais político e sagaz, Militz. As conversações chegaram a tal ponto que quase se chega a uma reconciliação, se não fossem as intransigências dos dominicanos. Lutero não queria uma cisão da igreja. Na verdade, ele era contra o rompimento da Igreja Romana. No entanto, sua posição muda diante dos acontecimentos.
    A celeuma crescia. O legado achava que isto havia se tornado num movimento nacional contra Roma. Isto pareceu ficar claro quando, em julho de 1519, Lutero e João Eck se enfrentaram numa grande controvérsia. Após esta, Lutero se convencia do abismo que separava a Bíblia da teologia escolástica. Alguns humanistas, como Filipe Melanchton, o povo e muitos nobres davam provas de apoio a Lutero. "Em junho de 1520, Leão X lançou a bula 'Exsurge Domine', que resultou eventualmente na excomunhão de Lutero. Em resposta, Lutero prontamente queimou em público a bula de Leão”, [6] para espanto de toda Alemanha.
    Neste mesmo ano, 1520, Lutero escreve três obras importantes: A Liberdade do Homem Cristão, O Cativeiro Babilônico da Igreja e A Nobreza Cristã da Nação Alemã. As duas primeiras atacavam doutrinas da Igreja, a última, convocava seu povo à unidade contra Roma. Alguns eruditos ficaram contra ele, um dos principais foi Erasmo de Roterdã. Este escreveu um livro defendendo o livre arbítrio, Diatriba de Libero Arbitrio, contestado energicamente por Lutero na obra De Servo Arbitrio[7], na qual são explicados os efeitos do pecado no homem.
     Após a morte do imperador Maximiliano, assume o poder seu neto Carlos V, cujo império a Alemanha fazia parte. Em 1521, Carlos V convocou uma Dieta em Worms, e Lutero também foi convocado. Ele compareceu acompanhado por nobres, teólogos, soldados e campesinos. Da parte do papa foram enviados os legados Marino Caraccioli e Jerônimo Aleandro, no intuito de que Lutero fosse entregue a justiça.
    Nesta Dieta foi exigido que Lutero se retratasse do que escreveu. Como não lhe foi dado o direito de se defender, ele pede tempo para meditar e lhe dão mais vinte e quatro horas. A segunda sessão foi dirigida por João Eck, que expôs novamente as acusações, sem lugar para debates. Lutero havia de se retratar ou sofrer as conseqüências. Quando chegou a sua vez de falar, foi brilhante. O que disse tinha o apoio dos doutores e santos, das Escrituras Sagradas, bem como das advertências de papas acerca do mau uso das indulgências. Eck queria uma retratação geral, e pedia que Lutero desse uma resposta direta e definitiva. Sua resposta foi: "é impossível retratar-me, a não ser que me provem que estou laborando um erro, pelo testemunho das Escrituras ou por uma razão evidente; não posso confiar nas decisões dos concílios e dos papas, pois é evidente que eles não somente têm errado, mas se tem contradito uns aos outro. Minha consciência está alicerçada na Palavra de Deus, e não é seguro nem honesto agir-se contra a consciência de alguém. Assim Deus me ajude. Amém".[8]
    Em meio a um grande alvoroço, em que os espanhóis pediam a fogueira e os alemães o trataram como um cavaleiro vitorioso de um torneio, Lutero saiu da audiência. Restava-lhe somente esperar a sentença do imperador. Sob pressão, o imperador proclamou o Édito de Worms, em que se ordenava a queima de seus livros, assim como a difusão de sua doutrina e ameaça de morte aos seus colaboradores. Os legados e o papa ficaram satisfeitos com o édito. Os príncipes alemães, por sua vez, temendo uma revolução popular, foram remissos e indispostos a executar as ordens do édito. Muitos deles eram simpáticos a sua atitude.
    Lutero, entretanto, escrevia a todo vapor em Wartburg. De lá saíram novos tratados, recompilação de seus sermões e início da tradução da Bíblia para o alemão. "Em 1522, Lutero voltou para Wittenberg para tratar das desordens que tinham irrompido na sua ausência".[9] Lideradas por alguns de seus colaboradores, tais como Carlstadt e o iluminista Tomás Muntzer. A ordem voltou à cidade e os líderes expulsos da cidade.
    O número de discípulos se multiplicava. Das várias ordens, monges e monjas deixavam os mosteiros para viver uma vida cristã mais normal. Porém, nesse contexto de aceitação dos ensinamentos do reformador, surgiram três crises graves. A primeira foi a revolta da pequena nobreza do sul da Alemanha. A segunda foi o ressurgimento de Carlstadt e Muntzer, líderes do movimento que depois recebeu o nome de anabatistas. E a terceira foi A Guerra dos Camponeses[10].
    Apesar desses contratempos e dos consequentes desvios doutrinários, a reforma se fortalecia. Carlos V abandonou a Alemanha de 1522 a 1530. Suas lutas lhe impediram de dedicar-se à causa luterana. O norte da Alemanha já havia abraçado a reforma, e de lá se estendeu para Danzig.
    Em meados de 1525, Lutero contraiu matrimônio com Catarina Van Bora, uma ex-freira. Em fins do mesmo ano, a cisão entre católicos e luteranos se aferrava e cada grupo defendia-se mutuamente. Em 1526 aconteceu a Dieta de Spira, na qual Fernando da Áustria ordenou a aplicação do Édito de Worms. Mas como a maioria dos príncipes era luterana, ficou resolvido que cada estado se responsabilizaria diante de Deus e da religião de seu povo. As igrejas reformadas se organizaram rapidamente e o culto evangélico foi estabelecido oficialmente em muitas cidades.
    "Uma segunda Dieta, realizada em Spira, em 1529, revogou a decisão da Dieta anterior e declarou que a fé católica romana era por lei a única fé. Os príncipes luteranos leram um 'Protesto'. A partir daí foram chamados de 'Protestantes' por seus opositores".[11]
    Durante muitos anos os luteranos tentaram melhorar suas relações com Roma. Quando Carlos V voltou a Alemanha, em 1530, tentou resolver essa questão religiosa, que estava convulsionando o império. Assim, nesse mesmo ano, na Dieta de Augsburg, a questão foi debatida. "Numa declaração de princípios, os luteranos apresentaram a famosa Confissão de Augsburg. Melanchton, que se tornara um líder, apenas superado por Lutero, foi o principal autor dessa declaração".[12] Melanchton a redigiu em termos suaves e conciliadores, mas não houve entendimento. Então, o imperador ordenou a aplicação do Édito de Worms, a restauração da autoridade papal e a restituição dos bens eclesiásticos.
    Essas medidas foram uma declaração de guerra. Os príncipes luteranos criaram a Liga de Esmalcalda. A ela se uniram cidades do sul da Alemanha e da Suíça. Porém, não era dessa vez que a reforma seria suplantada. Em 1546, ano em que realmente a guerra começou, a situação ficava mais tensa. Do lado protestante veio à tona a bigamia de Filipe de Hesse, ao casar novamente, por causa da esterilidade da esposa. Do lado católico havia planos para uma Contra-Reforma, que culminou no Concílio de Trento (1543-1563).
    Por causa de uma viajem a Mansfeld no rigoroso inverno de 1546, Lutero ficou muito doente e morreu dias depois. Poucos meses após sua morte sobreveio a guerra. O Eleitor Frederico foi derrotado pelo imperador em Mühlberg, e os espanhóis ocuparam cidades protestantes. Carlos V, por sua vez, tentou impor um credo misto, que não satisfazia a ninguém. A princípio a vitória do imperador contra os protestantes era visível em toda parte. "Pouco tempo depois, porém, Maurício da Saxônia, expulsou-o da Alemanha. Entristecido por isto, e por outros fracassos, Carlos entregou a direção do Império às mãos do seu irmão Fernando. Sob o governo deste, foi feita a Paz de Augsburg na Dieta de 1555, a qual determinava que cada príncipe decidisse qual seria a religião do seu próprio território".[13] Essa paz legalizava o protestantismo na Alemanha, e eram assegurados os frutos da grande cisão com Roma. Somente a Confissão de Augsburg era tolerada, para outros grupos protestantes não havia liberdade. Todavia, a Paz de Augsburg foi o primeiro passo para uma completa liberdade religiosa.
    A influência de Lutero foi sentida em toda a Europa. Sua cisão com Roma espalhou-se rapidamente. Seus escritos tiveram grande aceitação. "Foi assim que seu movimento se fortificou na Boêmia, Hungria, Polônia. Inglaterra, Escócia, França, Países Baixos, Escandinávia, e mesmo na Espanha e Itália. Em alguns desses países, o movimento de reforma religiosa tinha tido início antes mesmo que Lutero surgisse como reformador".[14] Nos países escandinavos, Dinamarca, Noruega e Suécia, a Reforma foi um movimento exclusivamente luterano.

Pr. Robson Santana
IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL

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[1]Ricardo CERNI, Historia del Protestantismo, p.39 (tradução minha).
[2] Idem, p. 39.
[3] Idem , p. 40, 41.
[4] Idem p.42
[5] Justo L. González, A Era dos Reformadores, p. 54.
[6] Earle E. Cairns, O Cristianismo através dos Séculos: uma História da Igreja Cristã, p. 237.
[7] Temos uma obra condensada deste livro, Nascido Escravo, editora Fiel.
[8] Citação extraída do livro História da Igreja Cristã, de Robert Hasting Nichols, p. 166.
[9] R. W. Heinze, Martinho Lutero, in Walter A. Elwell, ed., Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, p. 457, vol. ii.
[10] Cerni, op. cit., pp. 48, 49.
[11] Cairns, op. cit., p. 239.
[12] Robert Hasting Nichols, História da Igreja Cristã, p. 169.
[13] idem, p. 171.
[14] Idem, p.171.

29 de agosto de 2017

Antes de demitir seu pastor | Thom S. Rainer

Isso aconteceu novamente esta semana.

Um pastor me contatou para me informar que seus diáconos pediram sua renúncia. O motivo? Nenhum deles foi realmente claro sobre isso. O melhor que posso discernir a questão é a mudança, ou o passo da mudança.

A igreja é conhecida na região negativamente como uma "igreja devoradora de pastor". Figurativamente, eles comem pastores e os cospem. E está acontecendo de novo.

Eu compreendo. A culpa nem sempre reside na igreja. Os pastores não são perfeitos, e muitos deles fizeram algumas coisas que podem merecer dispensá-los. Mas esse não é o caso da grande maioria das igrejas onde tenho detalhes e boa familiaridade.

Dito de formar simples, pastores demais estão sendo demitidos. Parece uma epidemia.
Então, por favor, líder da igreja, considere estas palavras antes de dispensar seu pastor. 

Por favor, respire e veja se alguma das minhas advertências acertou em cheio.

1. Ore com mais fervor. Você está prestes a tomar uma decisão que moldará sua igreja, o pastor e a família do pastor nos próximos anos. Certifique-se de ter orado e orado e orado sobre essa decisão.

2. Compreenda plenamente a consequência para sua congregação. Uma igreja é marcada uma vez que dispensa um pastor. Membros saem. Visitantes costumeiros que podem se tornar membros se afastam. O moral é devastado. A igreja tem que passar por um período prolongado de cura, onde pode não ter muito foco externo.

3. Ouça outras vozes. Muitas vezes, comitês de pessoal, diáconos ou presbíteros decidem dispensar um pastor porque escutam alguns descontentes. Conheço uma igreja com um comitê de pessoal fraco que demitiu um pastor depois de ouvir um pastor executivo e um diácono mandão. E eles nunca pediram para ouvir o lado da história do pastor.

4. Considere a reputação da igreja na comunidade. Você está prestes a receber o rótulo: "A igreja que demitiu seu pastor". Essa será sua identidade por algum tempo.

5. Procure a mediação. Existem algumas fontes de mediação muito boas disponíveis. Por que não, pelo menos, dar uma chance antes de tomar uma decisão precipitada e muitas vezes desinformada?

6. Deixe o seu pastor saber o porquê. Olhe para o número três novamente. Essa igreja nunca disse ao pastor por que ele estava sendo dispensado. Sério. Acho que é difícil explicar que o diácono e o pastor executivo orquestraram um golpe de sucesso. Estou impressionado com quantos pastores não sabem por que estão sendo afastados. Isso é covarde. Isso não é parecer com Cristo.

7. Considere um plano de transição. Outra igreja abordou sua situação com maior sabedoria e ação cristã. Eles compartilhavam com tristeza ao pastor que a química não estava funcionando entre ele e muitas pessoas da congregação. Mas, ao invés de demiti-lo, deixaram que ele continuasse por até um ano para encontrar outra igreja. É sempre mais fácil encontrar uma igreja se você tiver uma igreja.

8. Seja generoso. Se sua igreja tomar a decisão de despedir seu pastor, seja generoso com indenizações e benefícios. Não trate seu pastor como uma organização secular pode tratar um empregado. Mostre ao mundo a compaixão e generosidade cristãos.

Términos de relacionamento pastor-igreja abruptos são infelizmente comuns. Considere estes oito pensamentos antes de sua igreja tomar uma decisão tão séria e duradoura.

Thom S. Rainer

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Título original: Before you fire your pastor
URL do original:  http://thomrainer.com/2017/08/before-you-fire-your-pastor/
Acesso: 29/08/17
Tradução: Pr. Robson Santana (Igreja Presbiteriana do Brasil)
Revisão: Pr. Walter Leite (Igreja Batista Betel – Aracaju – SE)

27 de agosto de 2017

Como saber se você é um verdadeiro discípulo de Cristo?


Quando Jesus ministrava a palavra aos discípulos, seu foco era mostrar o que significava seguir a Ele e o custo desse discipulado. Em alguns momentos Jesus deixava claro quais eram as marcas ou características de um verdadeiro discípulo. Os escritos do apóstolo João, tanto no Evangelho, como na 1ª Epístola, contêm 3 passagens que se referem ao genuíno discipulado.

1. Os verdadeiros discípulos creem em Jesus e guardam seus mandamentos. Não basta apenas acreditar em Jesus ou até mesmo ter um conhecimento profundo a respeito da pessoa e obra de Cristo. Quem ama a Jesus concorda com Seus ensinos e obedece (João 8.31-32). O Rev. Ricardo Barbosa alerta para uma nova classe de ateus, o ateu crente. Ele sabe tudo acerca de Deus e da religião, mas não vive a fé na prática.

2. Os verdadeiros discípulos amam uns aos outros. Aquele que se considera um discípulo de Jesus deve parar e se perguntar: “eu realmente amo outros discípulos”. Jesus em um dos seus últimos discursos aos discípulos mais próximos, disse: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.” (João 13.35). O amor é principal virtude cristã e a base de relacionamentos saudáveis e do nosso serviço ao próximo.

3. Os verdadeiros discípulos frutificam. Jesus é a videira verdadeira, seus discípulos são os ramos. Quem está enxertado nEle, esse dá muito fruto. É uma alegoria muito lógica. E esse é o propósito maior da nossa existência. Por isso Jesus afirmou: “Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos” (João 15.7)

Qual o resultado de seguir a Jesus? Jesus se refere a essa questão em Mateus 4.19 e Marcos 1.17 quando disse aos irmãos Pedro e João:: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.” Com certeza Jesus estava se referindo ao evangelismo e missões, até porque é isso que vemos os apóstolos fazendo nos Evangelhos, em Atos e nas Epístolas. O chamado de Jesus aos seus discípulos é para a salvação e o serviço, sendo que o principal é esforçar-se para que outros se tornem discípulos verdadeiros e maduros.

Pr. Robson Santana

Adaptado do livro Strategic Disciple Making, de Aubrey Malphurs
Há uma resenha do livro neste blog, veja qui 

21 de agosto de 2017

Por que leva cinco a sete anos para tornar-se o pastor de uma igreja | Thom S. Rainer



Você é o novo pastor da igreja. As expectativas são importantes da sua parte e da parte dos membros. Talvez você celebre com algum tipo de culto de instalação.

Você está pronto para liderar e mover a igreja para a frente. Afinal, você é o pastor. Certo?

Errado.

Na maioria das igrejas estabelecidas, há um período prolongado antes que os membros da igreja como um todo o abracem como pastor. Quando chega esse tempo, a maioria dos pastores desfruta dos seus melhores e mais alegres anos de ministério.
Mas a maioria dos pastores nunca chegou ao quinto ano, muito menos ao sétimo ano. Então, por que leva cinco a sete anos para ser abraçado como o pastor das igrejas mais estabelecidas? Aqui estão sete razões comuns.

1. Demora muito tempo para entrar em padrões de relacionamento estabelecidos. Muitos dos membros existem há décadas. Eles têm seus amigos, familiares e grupos de relacionamento. Os pastores não entrarão significativamente em muitos desses relacionamentos por vários anos.

2. Você está criando novas maneiras de fazer as coisas. Você pode não pensar que você é um grande agente de mudança, mas sua presença como o pastor muda as coisas de forma significativa. Você lidera de forma diferente. Você prega de forma diferente. Sua família é diferente. A igreja tem que se ajustar a todas as mudanças que você traz antes de começar a abraçá-lo completamente como pastor.

3. A maioria dos relacionamentos não se estabelece totalmente até que eles passem por um ou dois grandes conflitos. O primeiro ou segundo ano são seus anos de lua de mel. A igreja acha que você é absolutamente excelente. Então você faz algo, lidera algo, ou muda algo que seja contrário às suas expectativas. Acontece o conflito. Você não é mais o melhor. Então você tem dois anos de lua de mel, um a dois anos de conflito, e um a dois anos para chegar do outro lado do conflito. Então você se torna pastor em cinco a sete anos.

4. A igreja está acostumada a pastores de curto prazo. Muitas igrejas raramente veem um pastor chegar ao quinto, sexto ou sétimo ano. Eles nunca aceitam completamente o pastor, porque eles não acreditam que o líder irá superar o primeiro grande conflito.

5. Pastores anteriores feriram alguns membros da igreja. Há muitas razões para essa realidade, algumas compreensíveis e outras não. Em ambos os casos, um pastor anterior prejudicou alguns membros da igreja, e os membros levam vários anos para aceitar um novo pastor e aprender a confiar novamente.

6. A confiança é cumulativa, não imediata. Essa realidade é especialmente verdadeira em igrejas estabelecidas. Independentemente de como o ministério se desenrola, simplesmente leva tempo antes que os membros da igreja estejam dispostos a dizer com convicção: "Esse é o meu pastor".

Eu sei. Gostaria que pudéssemos estalar os dedos e desfrutar da confiança imediata. Mas, na maioria das igrejas, simplesmente não vai acontecer rapidamente. Serão necessários cinco a sete anos.

Você está disposto a ficar para desfrutar o fruto de um pastorado de longo prazo?


Thom S. Rainer
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Título original: Why it takes five to seven years to become the pastor of a church
Acesso: 21/08/17
Tradução: Pr. Robson Santana (Igreja Presbiteriana do Brasil)