14 de junho de 2014

Intencionalidade na Evangelização

     Certa feita uma jovem perguntou para seu pastor: - Por que a Igreja não está crescendo?. Ele respondeu rápido e direto: - Porque você não está evangelizando! Talvez você já tenha feito essa mesma pergunta e a resposta tem de ser a mesma. Há uma ideia errada que somente os lideres é que devem evangelizar e fazer discípulos. Ou a ideia igualmente errada de que “ovelha gera ovelha”. Na verdade todos os discípulos de Jesus devem se esforçar para ganhar o máximo possível de pessoas para Deus.
     Existem algumas marcas de uma Igreja que faz diferença. Dentre essas marcas a Igreja deve ter como centralidade a Palavra de Deus, ela deve ampliar sua visão de Deus, de si mesma e da sua missão (glorificar a Deus) e conectar-se com nosso tempo para que possamos alcançar os perdidos com uma abordagem adequada, sem comprometer a mensagem. Outra marca igualmente importante é a intencionalidade da evangelização.
     A igreja tem feito muitas coisas, mas a maioria deles é voltada para nós mesmos que já conhecemos a graça de Deus. Isso é importante, pois temos de viver em comunhão como família de Deus e crescer na fé, porém não podemos perder de vista que a vontade de Deus é “que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.4) e Ele conta com você. Por isso o apóstolo Paulo disse: “ai de mim se não pregar o evangelho!” (1Co 9.16).
     Há algumas razões para a omissão. Pode ser a secularização do coração, a preocupação com a autoimagem (rejeição), o sentimento de que não está preparado (insegurança). No entanto, creio que o motivo principal é a falta de intencionalidade em testemunhar da obra salvadora de Deus.
     Tomemos como exemplo o Diácono Filipe em Atos 8 de alguém que tinha a vida disposta para a evangelização. Nesse texto encontramos alguns aspectos:
     1) Diferentes movimentos, mesma direção: Para Fora. Filipe saiu de Jerusalém para Samaria. De Samaria para o caminho deserto – quanto evangelizou o eunuco Etíope. E desse caminho para Cesareia. O foco dele era claro: alcançar àqueles que ainda não ouviram a mensagem da Cruz. Dietrich Bonhoeffer disse que “a Igreja, só é Igreja, quando existe para os de fora”.
     2) Diferentes lugares, mesma tarefa: Anunciar. Nos vários lugares que Filipe foi, a partir de Jerusalém, seu foco era anunciar o Evangelho. Seja em Samaria, no caminho deserto ou Cesareia, ele sabia que tinha de anunciar o Cristo. Só Ele salva os perdidos de todos os lugares. Como bem sintetizou o apóstolo, “como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14). Para alcançar as pessoas próximas a nós precisamos atentar para os 3 Cs: (1) Converse com Deus – ore pelas pessoas. (2) Conecte-se com a pessoa – [a] busque se relacionar, [b] escute bem a pessoa e [c] encontre espaço para servir. Por fim, (3) Conte a sua história – dê testemunho do que Deus fez por você e continua fazendo.
     3) Diferente estratégias, mesma mensagem: Evangelho. Em Samaria e Cesareia Filipe pregou às multidões. Com o eunuco a abordagem foi pessoal. Mas a mensagem era a mesma: testemunhar da pessoa e obra de Cristo para a salvação.
     Você tem estado atento(a) e comprometido(a) com o interesse de Deus pela vida daqueles que lhe cercam?
     Pense em pessoas de seu círculo de relacionamentos e mova-se intencionalmente através dos 3 Cs.
Pr. Robson Rosa Santana
Adaptado de estudos do Pr. Ricardo Agreste

31 de maio de 2014

“O Reino dos céus é tomado por esforço”


Há muitos textos que são fáceis de compreender. Há outros em que sua interpretação é mais difícil. E há outros textos que não compreenderemos plenamente aqui, pois o próprio Deus resolveu não deixar mais claro para nós. Talvez na eternidade Deus queira revelar para nós. Talvez não.
Um desses textos difíceis de compreender são as palavras de Jesus em Mateus 11.12, quando Ele diz que o “reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele” (Almeida Atualizada). O contexto dessas palavras de Jesus é o testemunho que Ele dá a respeito de João Batista. Primeiro, Jesus fala que João não era alguém que pertencia aos grupos privilegiados da sociedade, que vestiam roupas finas e morava em palácios. Pelo contrário, “as vestes de João eram feitas de pelos de camelo; ele trazia um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre” (Mc 1.6). Em segundo lugar, Jesus deixa claro que João era um profeta. Na verdade, o maior dos profetas do Antigo Testamento, pois ele foi o mensageiro profetizado por Malaquias (Ml 3.1), que preparou o coração do povo judeu para a chegada do Messias prometido: Jesus. Como Jesus mesmo disse, “os profetas e a lei profetizaram até João” (Mt 11.13). João viu o Cristo Jesus, mas morreu antes de ver a obra completa da cruz e ressurreição. E em ultimo lugar, nesse testemunho sobre João (Mt 11.7-19), Jesus afirma que ele era o Elias profetizado em Malaquias 4.5. Não no sentido da reencarnação, mas significando “no espírito e poder de Elias” (Lc 1.17), ou seja, esses dois profetas foram os mais semelhantes na Bíblia.
Expostos estes fatos, qual o sentido de “reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele”. A expressão “tomado por esforço” é a tradução do verbo grego biazetai, que está na 3ª pessoa do singular do presente do indicativo na voz média ou passiva. Se ele estiver na passiva, significa que o reino de Deus é forçado, querendo dizer que homens violentos o tomam pela força. Se estiver na voz média, pode-se traduzir por “força seu caminho” como um vento impetuoso. Robertson, na obra Words Pictures, conclui a análise desse verso dizendo que “estas difíceis palavras de Jesus significam que a pregação de João levou uma multidão violenta e impetuosa a reunir-se em torno de Jesus e seus discípulos”.
Diante do exposto e das palavras de Jesus que aqueles se “esforçam se apoderam dele”, entendo que tomar posse do reino exige esforço. Parece estranho para nós essa frase porque temos uma compreensão da salvação pela graça como se isso não exigisse esforço e abnegação para sermos santos e vencermos as tentações e provações aqui neste mundo. Palavras semelhantes de Jesus foram registradas por Lucas: “A lei e o profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo pregado o reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele” (Lc 16.16).

Na sua série de estudos bíblicos, John MacArthur Jr. (Mateus: a vinda do Rei, Editora Cultura Cristã, p.44) explica que a expressão “o reino dos céus é tomado por esforço” é mais bem traduzida como “o reino move-se para adiante e incansavelmente, e apenas os incansáveis forçam o seu caminho para ele”. Matthew Henry comenta de forma mais prática e devocional sobre essa verdade. Ele diz que isso “mostra o fervor e o zelo que são exigidos de todos aqueles que desejam fazer do céu a sua religião. Observe que os que desejam entrar no Reino dos céus devem se esforçar para consegui-lo; este reino é vítima de uma violência sagrada; o próprio ser deve ser negado, as tendências e a inclinação, a estrutura e o estado de espírito da mente devem ser alterados; há sofrimentos que devem ser suportados, uma força deve ser colocada sobre a natureza corrupta; devemos correr, lutar, combater, e sofrer agonias, e tudo isso não será suficiente para obter um prêmio como este e para vencer a oposição de fora e de dentro. ‘Os que se esforçam se apoderam dele’. Aqueles que têm interesse pela grande salvação são levados na direção dela com um desejo forte, e a terão mediante quaisquer condições, e não as acharão difíceis nem se deixarão levar sem uma benção (Gn 32.26). Aqueles que quiserem assegurar o seu chamado e eleição deverão se diligentes. O Reino dos céus nunca teve a intenção de tolerar a tranquilidade dos levianos, mas de ser o descanso daqueles que trabalham. É uma visão abençoada. Oh! Se pudéssemos enxergar mais, não uma disputa irada lançando os outros para fora do Reino dos céus, mas uma disputa sagrada, na qual todos são lançados para dentro dele!” (Mateus, CPAD, v.1, p.138).
Você está se esforçando para tomar posse do Reino?

Pr. Robson Rosa Santana

24 de março de 2014

O sucesso crescente dos filmes de super-heróis



1. O SURGIMENTO DOS SUPER-HERÓIS DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

Os super-heróis são personagens de ficção que possuem poderes sobre-humanos ou habilidades adquiridas que buscam o interesse público, ou seja, têm por objetivo a defesa do bem, a busca da paz, combater o crime. Enfim, lutar contra todo tipo de mal. Segundo Maria Ignês Carlos Magno e Rogério Ferraraz, “os super-heróis são produtos culturais próprios da sociedade da era industrial”.[1]
O surgimento desse tipo de ficção de super-heróis não é fácil de definir. Antes de 1938 houve personagens heroicos como Pimpinela Escarlate (1903), Tarzan (1912), Dr. Syn (1915), Zorro (1919), Buck Rogers (1929) e Flash Gordon (1934), dentre outros, mas ainda no formato Pulp ou em tiras de jornal.  
As que perduram até hoje vem do contexto da Depressão de 1929, como Super-Homem, e do pós inicio da 2ª Guerra, como Capitão América; Homem Aranha surge na década de 1960; citando apenas alguns exemplos. Todos eles são frutos de seus contextos, ou seja, têm uma ideologia política, por isso não podem ser vistos apenas como entretenimento infantil. Capitão América, por exemplo, depois da II Guerra desapareceu em 1948, voltou, saiu de circulação novamente e ressurgiu em 1964 em outro contexto de liberdade sexual, de gênero, guerra do Vietnã, etc. No capítulo 1, do livro Cinema e Fé Cristã, que trata sobre “História e Mitologias”, Brian Godawa afirma que a humanidade usa as histórias “para dar um sentido e um propósito à vida”, e que “um exemplo de adaptação mitológica em nossa sociedade secular pode ser visto nos heróis das histórias em quadrinhos”.[2]

2. O SUCESSO DOS SUPER-HERÓIS NO CINEMA

Havia muita dúvida quanto ao sucesso ou lucro dessas HQs de super-heróis no formato de filmes. A Era Reagan protagonizou a diluição total entre política e entretenimento, fruto do pós-modernismo. Houve um deslocamento do sujeito, a crise de identidade. Desse modo, “tais filmes trazem de forma exemplar as características e os elementos apontados como fundamentais para se compreender as fraturas de identidade potencializadas na e pela cultura midiática contemporânea”.[3]
Superman foi o primeiro em 1980 e desencadeou uma série de adaptações de outros super-heróis. A tendência moderna intensificou-se a partir do ano 2000 com X-Man, Homem Aranha (2002) e novamente Superman (2002), dentre outros. Segundo o site Adoro Cinema, há uma lista de 12 filmes de super-heróis para serem lançados entre 2013 e 2015: Homem de Aço (2013), Wolverine Imortal (2013), Kick-Ass (2013), Thor: O Mundo Sombrio (2013), Capitão América - O Retorno do Primeiro Vingador (2014), O Espetacular Homem-Aranha 2 (2014), X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014), Tartarugas Ninja (2014), Guardiões da Galáxia (2014), Quarteto Fantástico (2015), Os Vingadores 2 (2015), Homem-Formiga (2015).[4]
O artigo da BBC World News What's behind the current success of superhero movies? (O que está por trás do atual sucesso dos filmes de super-heróis?) tenta trazer algumas respostas para a questão, pois o sucesso é inegável. Apenas em 2006 – quando o artigo foi escrito, os filmes O Cavaleiro das Trevas, Homem de Ferro, Hancock, O Incrível Hulk e Hell Boy 2 faturaram mais de 2 bilhões de dólares somente nos Estados Unidos.[5] Ainda conforme esse artigo, “alguns acham que a crise econômica fez os americanos famintos pelo escapismo de super-herói e é por isso que tem sido tão popular”.[6] Essa conclusão deve-se ao fato de que alguns acham que há uma estreita relação entre as incertezas na área econômica e o sucesso dos filmes de super-heróis.
Existem outros aspectos que vão além do cenário americano, uma vez que o sucesso tem se tornado global, estimado em mais de 60 países. Lauren Schuker afirma: “eles realmente têm um presença internacional de um modo que outras franquias não o têm. Então eu acho que nós vamos começar a ver uma enorme quantidade desses filmes nos próximos anos, e em adição, filmes desse tipo que combinam diferentes super-heróis juntos”.[7]
No artigo Why are Superhero Movies so popular? (Por que os filmes de super-heróis são tão populares), o site Wisegeek afirma o reavivamento do gênero no cinema, e que o sucesso tem ultrapassado as expectativas. Segundo o site, os filmes de super-heróis tem alcançado o top das 6 maiores bilheterias – dentre 12 – na semana de estreia de filmes.[8] Assim como no artigo da BBC, este artigo diz que uma das possíveis causas é o escapismo. Segundo a Wisegeek, os filmes de super-heróis,

são tradicionalmente concebidos para ser uma mistura de educação e entretenimento, e os filmes de super-heróis tendem fortemente para o último elemento. Esses filmes tendem a ser potências de ação, acrobacias e emoção, envolvendo o público em um mundo colorido e totalmente realizado. Assistir a um filme de super-heróis é uma grande oportunidade para relaxar e não pensar em stress ou coisas difíceis em sua vida.[9]

Como já nos situamos em relação à questão histórica de dois heróis das HQs, Superman e Capitão América, da mesma forma os filmes de super-heróis surgem em contextos históricos que não podem ser desprezados. O sucesso dessa etapa pós ano 2000 também precisa ser considerado sob a perspectiva das Guerras do Iraque e Afeganistão em 2002, e com isso os problemas dos conflitos armados. E os super-heróis assemelham-se a oficiais militares que através da violência justificada – ou não - procuram estabelecer a paz e a vida normal. Desse modo, “alguns membros do público podem estar relacionados a este conceito, quer a nível pessoal ou em relação às suas ideias sobre a guerra e todas as situações do mundo atual”.[10] Os super-heróis são figuras que inspiram à esperança em tempos difíceis. Promovendo assim a ideia de paz, segurança e liberdade.
Ainda conforme artigo acima, “além dos motivos globais e psicológicos, filmes de super-heróis são apenas um monte de diversão. Desde o sucesso dos primeiros exemplos recentes do gênero, como X-Men e Homem-Aranha, a indústria cinematográfica de Hollywood começou investindo enormes quantias de dinheiro para os filmes, com grande retorno”.[11] Segundo o crítico Ricardo Calil, na revista Bravo (2007):

Ao longo de sua fantástica trajetória ficcional, os super-heróis das histórias em quadrinhos salvaram a mocinha, a América e a humanidade inúmeras vezes. Na vida real, eles têm agora uma missão mais prosaica, mas nem por isso menos exigente: tirar a indústria cinematográfica americana de uma das maiores crises de sua história e acalmar os inseguros executivos de Hollywood, amedrontados pelo avanço das novas tecnologias e da pirataria.[12]

Não se pode desconsiderar que existam outros motivos para os sucessos desse gênero. Para os amantes das HQs, por exemplo, uma história no papel ao ser passada para as telas com altas tecnológicas e efeitos especiais, é um sonho realizado. Ainda segundo Godawa, “A proliferação de histórias em quadrinhos que acabam sendo adaptadas para o cinema é um sinal de que existe uma fome contemporânea pelo culto aos heróis, o desejo de redenção por meio de atos salvífico de uma divindade”.[13]

3. ELEMENTOS DA CRIAÇÃO NOS FILMES DE SUPER-HERÓIS

A partir daqui iremos fazer uma análise dos filmes de super-heróis sob a ótica bíblica da criação-queda-redenção. Como seres humanos criados à imagem de Deus, não podemos fugir do nosso referencial existencial, que é Deus. A isso chamamos de análise teorreferente. Usando as palavras de Davi Charles Gomes, “a ideia da ‘teo-referência’ da realidade é usada aqui em contraste com a ideia de que a realidade pode ser conhecida tendo o homem como ponto de referência final”.[14] Positivamente ou negativamente, quanto as suas ações, os homens sempre refletem uma vida orientada por Deus conforme as Escrituras ou agem em emancipação pecaminosa contra Deus. Deus é sempre a referencia para analisar as ações e subcriações humanas, incluindo as histórias de super-heróis no cinema. Vamos então para alguns paralelos do primeiro elemento bíblico: aspectos criacionais.
A própria criatividade dos autores e empresas ligadas a esse ramo editorial, e agora cinematográfico, revela um aspecto de subcriação.
As regras são implícitas, existencialmente falando, envolvendo os contextos históricos da América e do mundo, como as guerras ou questões socioculturais. No entanto, para serem considerados super-heróis, alguns personagens ultrapassam as regras das leis da física humana, seja de modo “natural”, como Superman, ou fruto de resultados aleatórios de pesquisas científicas, como Homem-Aranha e Hulk. Ou ainda, habilidades adquiridas pela “evolução” como Wolverine ou com ajuda de tecnologias como Batman, Homem de Ferro e Flash Gordon.  
Outro aspecto criacional é a beleza plástica desses filmes, além das novas tecnologias de materiais, há a qualidade fantástica dos efeitos especiais feitos em altas tecnologias da computação gráfica (CG).
Embora todos os super-heróis, sejam eles descendentes de subdeuses como Thor ou Superman, como não são como o Deus da Bíblia, perfeito em todas suas virtudes, ou heróis surgidos de mutações genéticas, eles apresentam falhas, e de alguma forma, tentam aperfeiçoar-se.
Podemos ainda destacar, dentro desse tópico, as ideias de unidade que os super-heróis geram. Eles unem as pessoas por causa do bem comum que trazem a uma sociedade, país ou, até mesmo, o mundo. E quando os super-heróis se unem, a representatividade deles aumenta junto a opinião pública, seja ficcionalmente ou realisticamente, a exemplo dos Vingadores da Marvel. Quanto ao anseio por esses filmes e aquilo que representam, há até uma frustração dos fãs das HQs quanto a não efetividade de filmes baseados na Liga da Justiça, da DC Comics.

4. ELEMENTOS DA QUEDA NOS FILMES DE SUPER-HERÓIS

O aspecto mais considerável dos super-heróis é o fato deles, pelo menos a maioria, terem superpoderes que são usados para o bem público. E isso leva ao aspecto idolátrico nessas subcriações e na vida real, quando o fanatismo chega ao ponto da idolatria. Pois há uma intencionalidade dos criadores dos super-heróis em divinizar seus personagens.
O último filme do Superman – Homem de Aço (2013) - levantou de forma bem clara os paralelos do personagem com Jesus Cristo. Ele de alguma forma se torna mediador dos homens. Grant Morrison, no livro Superdeuses, afirma: 

O Super-Homem foi criado para ser mais forte, rápido e durável que qualquer ser humano. Ele é mais real que nós. Escritores vêm e vão, gerações de artistas o interpretam, e ainda assim algo persiste, algo que é sempre Superman. Nós temos que nos adaptar às regras dele, se quisermos adentrar seu mundo. Nunca podemos mudá-lo demais, ou perdemos o que ele é. Há um grupo persistente de caraterísticas que definem o Super-Homem, através de décadas de vozes criativas. O personagem possui essa qualidade essencial e imutável, em qualquer de suas encarnações. E isso tem nome: divindade.[15]

Há distorções sexuais e vaidade a exemplo do Homem de Ferro. Há vingança no Homem Aranha. Ira e descontrole no Hulk. Rebeldia no Thor. Culpa no Capitão América, por exemplo. Pastores tem pregado uma série de estudos falando da supremacia de Cristo sobre essas pretensas divindades falíveis e pecaminosas, intitulada Mais que um Vingador.[16]
Sejam bem intencionados ou não, vê-se muita violência física e verbal. O filão no mercado cinematográfico tem gerado um consumismo exacerbado. Há uma rede de comida rápida (fast food) que já atrela aos seus lanches bonecos dos personagens. Brinquedos, camisetas e outros apetrechos são comercializados globalmente.
 Farraraz e Magno depois de falar de algumas cenas de Homem Aranha 3 e Superman afirmam da grande vaidade que há nesses super-heróis ante seus feitos.[17]

5. ELEMENTOS DA REDENÇÃO NOS FILMES DE SUPER-HERÓIS

Segundo Brian Godawa, “a narrativa de histórias nos filmes resume-se à redenção, isto é, à recuperação de algo perdido ou obtenção de algo necessário”[18]. E continua: “os filmes podem ser basicamente histórias, mas essas histórias são no final, no fundo, acima de tudo quase sempre a respeito da redenção”.[19] É óbvio que o sentido de redenção aqui nem sempre corresponde ao sentido bíblico, mas há paralelos na busca de significado e esperança, eternidade, que mesmo sendo desfocado da verdade bíblica, tornam-se uma “redenção” humanista.
O surgimento do Superman lembra a encarnação e a vida de Cristo. O último filme (2013) fez questão de remontar aos aspectos originais desse super-herói. De alguma forma ele é o mediador entre a humanidade e seu pai Jor-El (El em hebraico significa deus). Os super-heróis representam em sua maioria deuses. Na verdade, a maioria dos super-heróis salvam a mocinha, a América ou o mundo. Como entretenimento, essas narrativas fazem um recorte da realidade, um momento sabático (descanso), apontando para a esperança do descanso celestial na eternidade (cf. Hb 4.9-11). Enfim, na maioria dos filmes há sempre aspectos redentivos, nos de super-heróis ficam mais evidentes.

6. APLICAÇÕES

6.1 Doxológica 
Devemos assistir filmes in coram Deo, na presença de Deus. Como diz 1 Coríntios 10.31: “ Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”. Nenhuma subcriação é neutra, especialmente aquelas que são escritas pelas pessoas. Como já dissemos, é preciso levar em conta o contexto histórico, social, psicológico e religioso dessas obras, pois sempre tem uma mensagem, clara ou implícita (tácita), para passar.

6.2 Eclesiológica
Como nenhum filme é neutro, de uma forma ou de outra é passada para as telas a cosmovisão do escritor/roteirista, por isso é preciso estar atento para a mensagem essencial dos filmes, que em sua maioria ficam implícitos. Por exemplo, ao analisar o cerne do filme Wolverine Imortal (2013), chega-se à conclusão que aqueles deuses falsos clássicos estão evidentes na história: dinheiro, sexo e poder. Sendo que o poder e dinheiro tentam desenvolver avanços tecnológicos que alcancem a imortalidade.
Além do mais, olhando para o outro lado da tela, para os expectadores, é necessário estar alerta contra o vício, a idolatria e o escapismo (fuga da realidade material e espiritual). Como diria Godawa, não devemos ser glutões culturais, nem anoréxicos culturais, mas devemos buscar assistir filmes com sabedoria e discernimento. Pois “um dos propósitos da arte é estimular a discussão de crenças e valores, para nos engajarmos em um discurso existencial mútuo”.[20] Por outro lado, há situações que é preciso deixar de assistir se de fato não trouxer nenhuma edificação, se não for conveniente ou dominar a vida da pessoa (1 Co 6.12; 10.23).

6.3 Missiológica
A ponte missiológica que podemos extrair dos filmes é analisar qual a proposta redentora que eles apresentam. No caso dos filmes de super-heróis, eles evocam aspectos quase divinos ou até mesmo divinos através de seus superpoderes, que embora ficcionais, despertam “o desejo de redenção por meio de atos salvífico de uma divindade”.[21]
A Igreja de Cristo, conhecedora do único meio de salvação da humanidade, deve analisar os “falsos redentores” e proclamar que somente Jesus salva verdadeiramente os pecadores (Jo 14.6, 1Tm 2.5).
No entanto, é preciso destacar o aspecto subjetivo de cada pessoa. Alguns estão plenamente conscientes que histórias e filmes são entretenimentos, mesmo que contenha uma cosmovisão embutida, e são apenas recortes da realidade que trazem momentos de satisfação e alegria. Quanto às aplicações práticas, é preciso tomar cuidado com o excesso de contextualização da mensagem. Por exemplo, no caso citado anteriormente sobre a série de mensagens baseadas nas falhas de caráter dos vingadores, a vinheta de chamada para assistir a série dizia que eles precisam de um salvador. A pergunta que se faz é: como personagens de ficção podem ser salvos?[22]

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Creio que o ponto geral a se destacar sobre super-heróis é que a humanidade nunca passou sem eles. Na Antiguidade clássica existiam os deuses e semideuses. Nos séculos seguintes tivemos os heróis da literatura, nem sempre superpoderosos, mas sempre em atitudes de superação. De alguma forma o ser humano projeta nos heróis em geral o que não são na vida real, sempre se imaginando senhor das circunstâncias, podendo revertê-las ao seu bel prazer.
Em tempos recentes, os super-heróis têm sido retratados mais em sua humanidade, como no último Homem de Ferro (quase que o filme todo sem a armadura). Outro é O Homem Aranha 2, onde Peter Parker perde temporariamente seus poderes. Outro ponto a ser destacado nesse sentido é a figura do anti-herói, onde não se tem mais um padrão moral perfeito, apenas atos que se julgam justos para servir ao bem da sociedade. As pessoas entendem que o bem pode ser praticado por quem é mal (o que é até verdade biblicamente falando), mas pior que isso, sentem-se atraídas por aqueles que equilibram uma personalidade má, com atos de justiça.
Finalmente, os heróis evocam a realidade de que precisamos de socorro, e como uma boa ficção, esses personagens provam o que “a força do homem nada faz, sozinho está perdido”. Mais do que projetar a força que se almeja, os autores projetam a fraqueza da humanidade, sempre desprotegida diante de catástrofes, violência e injustiça. Seres que não existem aliviam falsamente por algumas horas essas sensações reais da vida cotidiana. Eles apontam para a necessidade de um verdadeiro salvador, que não é superpoderoso, mas Todo-Poderoso.

Robson Rosa Santana

Revisão e sugestões:
Adalberto do Amaral Ribeiro Taques

Notas



[1] MAGNO, Maria Ignês Carlos, FERRARAZ, Rogério. Super-heróis ou celebridades midiáticas? Crise de identidade e suas representações em filmes do Homem-Aranha e do Super-Homem. In: Comunicação, Mídia e Consumo. São Paulo, Vol. 6, N° 6, p. 129-147, Jul. 2009. p.135.
[2] GODAWA, Brian. Cinema e Fé Cristã: vendo filmes com sabedoria e discernimento. Trad. Jarbas Aragão, Viçosa (MG): Ultimato, 2004, p.26.
[3] MAGNO e FERRARAZ. Super-heróis ou celebridades midiáticas?, p.138.
[4] 12 novos filmes de super-heróis dos quadrinhos. Disponível em: http://www.adorocinema.com/materias-especiais/filmes/arquivo-100288/. Acesso em: 02 set. 2013.
[5] Disponível em: http://www.bbcworldnews.com/Pages/ProgrammeFeature.aspx?id=41&FeatureID=901. Acesso: 26 ago. 2013.
[6] Ibid.
[7] Ibid.
[8] Ver artigo online em: http://www.wisegeek.com/why-are-superhero-movies-so-popular.htm. Acesso: 26 ago. 2013.
[9] Ibid.
[10] Idid.
[11] Ibid.
[12] MAGNO, Maria Ignês Carlos, FERRARAZ, Rogério. Super-heróis ou celebridades midiáticas? Crise de identidade e suas representações em filmes do Homem-Aranha e do Super-Homem. In: Comunicação, Mídia e Consumo. São Paulo, Vol. 6, N° 6, p. 129-147, Jul. 2009. p. 139.
[13] GODAWA. Cinema e Fé Cristã, p.28.
[14] GOMES, Davi Charles. A metapsicologia vantiliana: uma incursão preliminar. In: Fides Reformata XI:1 (2006), p. 116, nota 14.
[15] MORRISON, Grant. Superdeuses. 1ª Ed. Trad. Érico Assis. São Paulo: Seoman, 2012. 496p.
[16] Veja a série ministrada em algumas Igrejas Presbiterianas: Campolim: www.comunidadecampolim.com.br/palestras_em_categoria.php?id=42.  Chácara Primavera: http://www.chacaraprimavera.org.br/serie-de-palestras/mais-que-um-vingador-a-supremacia-de-cristo-sobre-todos. Esta série tem sido ministrada em várias outras igrejas.
[17] MAGNO e FERRARAZ. Super-heróis ou celebridades midiáticas? p.142.
[18] GODAWA. Cinema e Fé Cristã, p.15.
[19] Ibid.
[20] GODAWA. Cinema e Fé Cristã, p. 223.
[21] Ibid., p.28.
[22] O vídeo de chamada da série está disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=2sq39DMJBu8. Acesso em: 04 set. 2013.

7 de março de 2014

A Importância da Mulher na Bíblia - Dia Internacional da Mulher

  O dia 08 de março é reconhecido internacionalmente como Dia da Mulher. Neste dia de 1857 operárias de uma fábrica de tecidos de Nova York fizeram greve por melhores condições de trabalho e salário. Foram reprimidas com total violência. Trancaram-nas na fábrica que foi incendiada, morrendo cerca de 130 mulheres. A ONU oficializou essa data em 1975. À parte desses eventos históricos que buscaram igualdade e dignidade para as mulheres, o que a Palavra de Deus tem a nos dizer sobre elas?
   1) Deus criou homem e mulher com dignidade igual. A mulher não é inferior ao homem. Homem e mulher foram feitos à imagem de Deus. Por muito tempo e até hoje, as mulheres sofrem o preconceito por ser mulher. Em estatísticas do passado, somente os homens eram contados. Religiosos judeus da antiguidade todos os dias agradeciam a Deus por não nascer “pagão”, e por não nascer mulher. Até pouco tempo atrás as mulheres não estudavam. Somente aprendia a ser uma boa esposa e boa dona de casa, em face do preconceito sexual masculino. Pedro nos diz que homem e mulher são herdeiros da mesma graça de Deus (1 Pe 3.7).
   2) Mas Deus criou homem e mulher diferentes. Se não houvesse diferença nenhuma entre homem e mulher, Deus criaria somente o homem. Mas Deus diz que não era bom que o homem (macho) esteja só, assim criou a mulher. Uma pessoa só se completa com alguém do sexo oposto. Isso se refere ao casamento entre um homem e uma mulher.
   E aqui entra algumas funções das mulheres: esposa, mãe, dona de casa (ou orientadora). Quanto ao papel do marido, a Bíblia nos instrui quanto ao trato da mulher como esposa e dona do lar. “Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade, porque sois, juntamente, herdeiros da mesma graça de vida” (1 Pe 3.7). (A) o marido deve participar do andamento de sua casa. Não deve ser omisso ou aproveitador. (b) O marido deve conhecer a sua mulher – ela pensa e age diferente. É mais frágil, não na dignidade ou inteligência, mas no emocional  e na força física (homem que violenta mulher é covarde). E ele deve (c) tratá-la com dignidade. A mulher é preciosa, Ela tem seu valor. Que Deus lhe deu.
   3) A mulher deve continuar lutando para conquistar essa igualdade. Até o século retrasado (XIX), as mulheres não estudavam. O pai escolhia os maridos para as filhas, por interesses os mais diversos, principalmente, status na sociedade e estabilidade financeira. Somente em 1932 as mulheres adquirem o direito de votar e serem votadas no Brasil. Hoje as adolescentes colhem os frutos das lutas dos direitos à igualdade das mulheres.
   De fato, se as mulheres executam os mesmos trabalhos devem ganhar o mesmo que os homens. AS mulheres devem continuar lutando para que seus direitos constitucionais sejam, de fato, cumpridos. (CF. Art 5º, Inciso I: “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”.
   Conselhos às Mulheres:
  1) Lutar por igualdade é justo, mas não queira ser superior ao homem. Cuidado com o feminismo exagerado. Igualdade é uma coisa, querer ser superior ao homem é inverter os papéis. Há mulheres que têm aversão, raiva dos homens.
   2) Cuidado para não se sobrecarregar com os trabalhos dentro e fora de casa. Há mulheres cansadas, desanimadas com a vida, por causa do excesso de trabalho. Lembre-se: Você tem de cuidar do marido como ESPOSA. Você tem de cuidar dos filhos como MÃE. Você tem de cuidar/administrar a CASA. Trabalhe fora, mas se não houver tanta necessidade, não se afadigue demais. Se capacite o mais que você puder. Estude o quanto você puder. Mas cuidado com o estresse. É preciso ver se vale a pena. Pondere nessas questões. Deus abençoe o seu dia.

Pr. Robson Rosa Santana

Para meditação:
 “A mulher foi feita de uma costela tirada do lado de Adão; não de sua cabeça para governar sobre ele, nem de seu pé para ser pisada por ele; mas de seu lado, para ser igual a ele, debaixo de seu braço para ser protegida, e perto de seu coração para ser amada”. 
(Matthew Henry)


Reprodução autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o blog http://www.rrsanana.blogspot.com e comunicada sua utilização através do e-mail rrsantana@hotmail.com

15 de fevereiro de 2014

A Psicologia Ajuda ou Atrapalha?


Por Augustus Nicodemus Lopes
Extraído de seu Facebook

Um dos conflitos mais persistentes e agudos no ministério pastoral é aquele relacionado com o uso da psicologia no aconselhamento e na cura de almas. O cuidado da alma, ou a “cura d’alma” como era chamado o ministério de aconselhamento no passado, sempre foi visto como parte integrante do ministério pastoral.

De fato, esse trabalho era visto como uma extensão do ministério da Palavra, uma chance de pregar a Palavra de Deus de forma individualizada, instruindo, repreendendo, corrigindo e educando o crente de forma personalizada, sensível ao indivíduo e as circunstâncias e vicissitudes da vida.

Hoje, o campo do aconselhamento, da psicoterapia e da “cura d’alma” tem sido transformado em campo de batalha. A psicologia secular a-religiosa, ou anti-religiosa, procura excluir o pastor do cuidado da psique, até mesmo sugerindo que a fé é um dos complicadores dos problemas psicológicos. Por outro lado, alguns pastores erroneamente aceitam a declaração de guerra e rejeitam a psicologia in toto, afirmando que uma visão bíblica invalida qualquer reflexão psicológica (anti-psicologia). E ainda alguns outros, pastores, psicólogos e psiquiatras cristãos acham que uma mistura entre os preceitos bíblicos e o conhecimento psicológico possibilita uma síntese (integração) que capacita tanto os pastores quanto os psicólogos para maior êxito. Talvez grande parte da discussão pudesse ser esclarecida se lembrássemos de alguns pontos chaves:

(1) Toda problemática humana nos relacionamentos com o próximo e consigo mesmo tem como pano de fundo a relação com Deus. Sendo assim, a tentativa de entender e ajudar o homem nas questões da alma, do coração, sem levar Deus em conta, sem considerar o que a revelação diz a respeito do homem e de seus problemas é fadada ao insucesso.

(2) Isso não significa que as observações e as perspectivas das psicologias não devam ser aproveitadas. Tal aproveitamento, entretanto, não pode ser uma mera síntese, uma mistura, ou uma integração, pois correríamos o risco de acabarmos com uma teologia pastoral psicologizada, como tem ocorrido muito em nosso tempo, ou uma psicologia pseudo-científica e teologizada.

Existe uma alternativa que evita estes perigos. Primeiro, reconhecer que só a Palavra de Deus oferece um retrato acurado do homem, em seu estado original (antes da queda), em seu estado atual (decaído e atormentado pelo pecado) e nas possibilidades de seu novo estado como ser redimido e progressivamente conformado à imagem do varão perfeito, Jesus Cristo (o padrão de uma alma, ou psique, saudável).

Segundo, reconhecer que só a Palavra de Deus estabelece os meios e os processos mediante os quais as pessoas podem ser auxiliadas na aplicação da Redenção nas diversas áreas de seus relacionamentos com Deus, com o próximo e com elas mesmas.

Terceiro, reconhecer que as observações e a sabedoria acumuladas mediante os esforços daqueles que se especializam em observar o comportamento e as dinâmicas da alma humana podem e devem ser aproveitados para o enriquecimento da prática pastoral do aconselhamento, desde que devidamente reorientadas pelos pressupostos e preceitos da Palavra.

Por fim, lembremos que a única paz completa e permanente que poderemos experimentar é aquela prometida por Jesus Cristo, “deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” (Jo 14.27), a qual só se manifestará plenamente em sua vinda e no seu Reino.

3 de dezembro de 2013

Avatar: mais uma investida do neopaganismo

1. História do filme
O filme ocorre em 2154 d. C.. Thommy tinha uma missão em Pandora. No entanto, morre uma semana antes. Seu irmão JakeSully, que também é um fuzileiro (Marine), mesmo paralítico das pernas, resolve continuar a missão, pois tinha o mesmo genoma. Ele participa de uma experiência em que seres foram criados a partir do DNA dos nativos do planeta Pandora e o DNA dos humanos. Estes seres são chamados de Avatar. Segundo fala de Jake, “o conceito é que o controlador se conecte a seu avatar, para que  o sistema nervoso dos dois se sintonizem”. E assim tentar estabelecer relações cordiais com os nativos humanoides chamados Na’vi[1], com o objetivo maior de explorá-los “diplomaticamente”.
Jake vem se juntar a um grupo de militares que agora se tornaram mercenários neste outro planeta. Grace Augustine[2] é a chefe do programa Avatar. O propósito é se infiltrar como um dos Na’vi, “domesticá-los” e explorar o mineral Unobtanium do planeta deles - Pandora. Os militares prefeririam resolver na força das armas, e o projeto Avatar tenta alcançar o mesmo alvo de forma dissimuladamente amigável.
Em determinado momento Jake em seu avatar vai com outros avatares numa missão de reconhecimento, até que Jake se vê lutando e fugindo com animais de Pandora. Ele se afasta e se perde dos outros. Uma das fêmeas Na’vi o encontra e o ajuda. Depois, Jake é encontrado por outros nativos e é salvo pela “amiga” Na’vi, sendo em seguida levado para a tribo deles. Ao encontrar-se com o líder do grupo, a filha que encontrou o avatar de Jake disse que o trouxe a eles por causa de um sinal de Eywa. Nesse diálogo passa a conhecer a mãe dela, que se chama Tsahik (que significa “aquela que interpreta a vontade de Eywa”)[3]. Nessa conversa Tsahik decide que sua filha ensine ao avatar seus costumes. O centro da aldeia dos Na’vi está em cima do maior depósito de Unobtanium num raio de centenas de quilômetros. A ideia é retirar os nativos de lá e explorar o mineral.
Depois que ele retoma a consciência na base, é instruído por Grace sobre os nomes dos principais dos Na’vi. Dentre eles está Neytiri, que foi a que o ajudou. Ela será a próxima Tsahik. Até que Jake pergunta que é Eywa, e lhe respondem: “só sua divindade, sua deusa, feita de todas as criaturas vivas, e que conhecem”. E assim ele volta para o avatar para aprender com Neytiri. A primeira lição é andar em um tipo de cavalo, sendo feita uma ligação de um tipo de crina do animal com o cabelo dele. Essa ligação é chamada de tsaheylu.
De volta ao treinamento o avatar de Jake tem aprender a voar com uma ave com a qual se tem a mesma ligação tsaheylu. É ensinado a correr sobre as árvores, a atirar com flechas, etc. Essa ligação não se dá apenas entre alguns animais e os Na’vis, mas entre eles e tudo ao redor. Uma das indagações de Jake é justamente sobre isso. Em uma das suas falas em pensamento ele diz: “Ela fala de uma rede de energia que conecta todos os seres vivos. Ela diz que a energia é só emprestada, e um dia temos de devolver”. Jake mata um animal e Neytiri diz que seu espírito voltaria para Eywa e seu corpo ao ser comido faria parte do povo.
Depois de tantas incursões no mundo de Pandora em seu avatar, Jake começa a entrar em crise, questionando se lá de fato não era o mundo real. E o real fosse um sonho. Há também um lugar sagrado para os na’vis chamado Árvore das Almas, onde os seres humanos nunca tiveram permissão de conhecer.
Numa cerimônia Na’vi, o avatar de Jake se torna um filho de Omaticaya e agora faz parte do Povo. Todos vão pondo as mãos nos ombros uns dos outros fazendo uma grande unidade. Neytiri leva Jake para a Árvore das Vozes – vozes dos ancestrais – estes fazendo parte de Eywa. Para finalizar o treinamento, ela lhe diz que ele precisa de uma mulher, a qual ele poderia escolher. Ele diz que essa mulher teria de escolhê-lo, ela responde que ela já o escolheu. Então se beijam e se amam. Ela diz: “eu faço parte de você agora”. Dormem juntos e depois ele acorda e pensa: “o que é que eu fiz”.
Nesse ápice de inserção no mundo de Pandora entre os Na’vis, eles acordam juntos com o barulho das máquinas destruindo a floresta. Ele tenta se interpor. Segundo a Drª Grace Augustine, ela acha que as árvores possuem uma rede de comunicação entre as raízes como se fosse um grande cérebro com mais neurônios do que o cérebro humano, por isso os Na’vis tentarão defender o seu meio ambiente a qualquer custo. Jake e Grace são presos na base da missão, mas conseguem fugir com mais alguns para outra base onde tem máquina que pode levar a mente ao avatar deles. Grace morre, depois de tentarem salvar com a divindade de Pandora, pois estava muito fraca.
Uma batalha épica acontece. Além de outras tribos nativas, juntam-se aos Na’vis os animais terrestres e voadores; que segundo Neytiri foram enviados por Eywa em resposta à prece de Jake. Os nativos, juntamente com o avatar Jake, vencem. Os invasores são mandados de volta. Jake vai à Árvore das Almas e os nativos numa espécie de transe coletivo pedem que o espírito de Jake fosse transferido para o avatar. Os olhos do avatar se abrem. Conseguiram. O filme termina.

2. Meta-história
O escritor e diretor do filme James Cameron é bem conhecido diretor de cinema. É um grande defensor de causas ambientais. A mensagem do filme é bem clara quanto a isso: uma defesa da natureza e dos nativos, apresentando um choque de cosmovisões. A cosmovisão pagã da adoração da natureza, contra o Ocidente cristão.  Somam-se a isso outros elementos bem interessantes. Tentaremos expor esses elementos abordando os aspectos centrais das Escrituras: Criação-Queda-Redenção.

3. Elementos da Criação em Avatar
Todo espaço físico do filme se dá num ambiente do tipo da criação original de Deus. A natureza é preservada pelos nativos. Destacam-se aspectos de comunidade; por serem ainda tribais, a interdependência entre eles é grande. Há entre os Na’vis representantes políticos e religiosos. As regras básicas têm a ver com a diretriz da deusa Eywa. Enquanto que as regras dos “colonizadores” é a do maior lucro no menor espaço de tempo. A beleza do lugar é impar; criação de um mundo paralelo ao nosso. Ou seja, uma subcriação aos moldes da criação por Deus. Somando-se o fato da grande tecnologia usada que dá uma beleza visual impecável. Existe uma enorme diversidade de coisas e seres, mas, ao mesmo tempo, isso tudo é um (abordaremos essa questão nos elementos da queda).

4. Elementos da Queda em Avatar
A Bíblia faz uma clara distinção entre criação e Criador. Deus é onipresente, mas é distinto das coisas que criou. No filme o elemento idólatra é gritante. Tudo faz parte da divindade chamada Eywa. Essa divindade está em tudo e tudo faz parte dela – como destacamos na história do filme. Existe a Árvore das Almas, para onde vão as almas dos ancestrais mortos e aos quais invocam e pedem. A ligação entre bestas parecidas com cavalos e dragões reforçam essa unidade (o tsaheylu). Enfim, no filme existem alguns elementos do paganismo histórico. Há o animismo – todas as coisas possuem almas. Panteísmo – todas as coisas são manifestações da divindade; Deus é tudo. Embora existam religiões panteístas na terra, Avatar evoca de forma contundente que Pandora não é somente uma divindade que abrange a tudo (panteísmo), mas que o planeta é um único organismo vivo. Essa ideia é chamada de Hipótese de Gaia, proposta pelo investigador inglês James Lovelock em 1972 – ainda discutida no meio acadêmico. Conforme Fernando Rebouças, “A teoria de Gaia tem simpatizantes ambientalistas, místicos e pesquisadores”.[4]Além do aspecto supracitado da idolatria pagã animista e panteísta e de resquícios da Teoria de Gaia, há outros aspectos da queda, como avareza e violência.

5. Elementos de Redenção em Avatar
Há vários elementos de Redenção, tais como a beleza impressionante da natureza recriada por James Cameron em Pandora. Há harmonia dentro da própria “tribo” Na’vi e do Povo com seu meio ambiente, uma harmonia que Deus queria que os seres humanos tivessem com a Terra. Teólogos chamam isso de Mandato Cultural, onde Deus fala para o homem cultivar a Terra, bem como cuidar dela (Gn 2.15).
O tema da eternidade é subjacente e tácito, uma vez que a harmonia dos seres vivos com o restante da natureza vira um círculo unitariano, pois os seres vivos morrem e voltam à terra, ou seja, à Terra viva, à deusa mãe Eywa. Já que o que existe é “uma rede de energia que conecta todos os seres vivos. [...] a energia é só emprestada, e um dia temos de devolver”. Há também um aspecto vicário no personagem de JakeSully, quando dar tudo de si pelo outro, até que enfim se torna o outro.

6. Aplicações práticas
Como já dissemos o filme tem uma abordagem idólatra própria do animismo-panteísmo. Diz o apóstolo Paulo em Romanos 1.25: “pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém”. Doxologicamente, vemos uma inversão das coisas como reveladas na Palavra. Deus é Criador distinto da criação. Por meio dela glorificamos Aquele que fez todas as coisas.
Numa aplicação eclesiológica, temos de alertar aos nossos irmãos em Cristo para estarem atentos ao consumirem cultura, seja popular ou não. Manifestações culturais nunca são neutras. Elas sempre comunicam cosmovisões. No caso de Avatar, a mensagem está lá e precisamos discerni-la.
O filme também serve para analisar a cosmovisão dos incrédulos. Devemos reconhecer que temos de cultivar/lavrar a terra, ou seja, usufruirmos dela, sem exaurirmos seus recursos, dificultando a própria relação do planeta que provê os recursos de subsistência nossa. No entanto, observar o mandato cultural de cuidar/guardar a terra, não deve nos levar a adorá-la, como se, de fato, ela fosse nossa “mãe”, ela como a origem de tudo, pelo contrário. “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém” (Rm 11.36).

Robson Rosa Santana
Texto apresentado como trabalho do módulo Hermenêutica Cultural e Ministério Pastoral, do Mestrado em Divindade (M. Div. - Missões Urbanas), do CPAJ.


[1] Há uma semelhança dessa palavra com palavra hebraica para profeta. Talvez querendo dizer que o povo era um tipo de profeta.
[2] Chama a atenção que o nome da cientista chefe é Grace (Graça), nome de uma doutrina central do cristianismo histórico; e o sobrenome Augustine (Agostinho) refere-se a um dos pais da Igreja do século IV, que é considerado uma das maiores influencias da civilização Ocidental.
[3] É a líder espiritual, tipo de uma Xamã. 
[4] REBOUÇAS, Fernando.Teoria de Gaia, in: http://www.infoescola.com/ecologia/teoria-de-gaia/, acesso em 14 de ago. 2013.